sexta-feira, 19 de outubro de 2012

Nonsense

Armínio quer que o Banco Central se explique. Não concorda com a queda dos juros. O que não precisa de nenhuma explicação - pro Armínio e pros jornalistas que falam sempre o que Armínio pensa - é um BC que por quase vinte anos (FHC e Lula) inventou uma das mais altas taxas de juros do planeta pra corroer nossa produção industrial e transferir bilhões em dinheiro da população mais pobre e da classe média pros....banqueiros, como....Armínio. Não, isso não precisa de explicação. Pobre Auric Goldfinger que tentou honestamente assaltar o ouro do Fort Knox nos EUA. Aqui somos muito mais sofisticados. Goldfinger  não precisaria de nenhum plano pra penetrar nos nossos cofres, poderia facilmente ser indicado pra presidência do BC, como Armínio foi. E, como Armínio descobriu, os lucros são muito maiores e, de quebra, ao invés do risco de enfrentar a justiça (ou o James Bond), ainda poderia passar o resto da vida posando de honesto gênio das finanças, o cara da austeridade. E acusando na Folha o desonesto atual ocupante do cargo de tentar, imagina só, atrapalhar a chegada das garrafas Dom Perignon safra 69 às mesas (na temperatura correta, 8-10°) dos honestos e austeros gênios das finanças que presidiram anteriormente o BC. É ou não o plano perfeito?

Putz acabei de dar a idéia pro verdadeiro filme-livro Assalto ao Banco Central. Mas acho que esse ninguém vai querer filmar.

quinta-feira, 18 de outubro de 2012

Traíras, toupeiras e Smiley

No post sobre Bond versus Bauer falei da dificuldade dos roteiristas de 24 Horas em captar tudo que envolve uma das grandes certezas de qualquer boa história de espionagem: traição. Não só de espionagem, claro, mas é obrigatório lidar com traição nas histórias de agentes secretos. A necessidade autoimposta de manter um ritimo maluco de reviravoltas obrigou os roteiristas do seriado do Jack Bauer a tratar uma traição, por mais complexa que seja, na base das caretas dos atores, que passavam em poucos segundos do Mahatma Gandhi prum chefe da Gestapo. As motivações nunca importavam muito, tudo sempre meio óbvio, dinheiro, vingança pessoal....

Mencionei também que um dos produtores de 24 Horas, Alex Gansa, conseguiu aprofundar bastante a questão da traição em outro seriado, Homeland. Acabei de ver a primeira temporada deste e ao menos aqui tenta-se entrar nos motivos que levam alguém a mudar tudo na vida, uma conversão completa - e sem necessidade de caras e bocas dos atores pra mostrar o seu lado no momento (a dupla de atores principais Claire Danes e Damian Lewis acabou de ganhar o Emmy - tudo bem, prêmio americano não é muito parâmetro de qualidade, mas as vezes acertam). Gansa, imagino, deve ter bebido na fonte do escritor John Le Carré que mais do que "mestre da espionagem", num rótulo comum, seria melhor descrito como um ótimo criador de traíras.


Le Carré ou David Cornwell (seu nome real) quando jovem foi agente do MI6 e saiu ou foi saido - parece que vem uma biografia por aí - debaixo do escândalo da deserção de Kim Philby - um dos "quatro grandes", agentes do topo do serviço de inteligência britânico que atuavam como duplos (toupeiras, no jargão) pra KGB no começo dos anos 60. Os outros agentes eram Donald Mclean, Guy Burgess e Anthony Blunt. Esses quatro nomes aparecem com frequência - e boa dose de amargura - nos romances de espionagem - como os do Frederick Forsyth - e devem ter deixado um belo trauma (além de muita dúvida sobre tudo quanto é informação obtida) numa geração inteira de espiões ingleses. Entre os quatro toupeiras não havia nenhum pé-de-chinelo, vinham da elitista Cambridge dos anos 40 e 50, compondo a perfeição o imaginário que moldou a origem do serviço secreto britânico do aristocrata espião lutando pela rainha contra os inimigos do continente. E os quatro, contudo, optaram pela Rússia soviética. Mesmo que apenas num instante, o império decadente que havia resistido aos nazistas caia, aparentemente por escolha, pros soviéticos e isso deve ter marcado bastante o espião David Cornwell mas fundamentalmente o escritor John Le Carré, que basicamente moldou seus livros em função dessa duplicidade inerente a quem se propõe justamente a viver múltiplas vidas. Resumindo, enquanto, na década de 1960, o mundo começava a ver nos cinemas o superespião brintânico infalível e imperturbável no seu patriotismo de Ian Fleming, no mundo real MI6 e MI5 eram piada fora da Inglaterra pela intensa atividade de toupeiras soviéticas no seu quintal de caça a raposa.

Produto direto dessas traições, diferente de Flaming que exorcizava a complexidade com seu espião herói, Le Carré em todos os livros (pelo menos nos que me lembro agora) reconstrói um pouco essa rotina de sombra que deve ter cercado Kim Philby e os demais toupeiras - décadas passadas criando uma lenda, relacionamentos, filhos, amizades, informações, tudo ou quase tudo falso. Não apenas mentira, mas falsificações conscientemente plantadas pra levar seus colegas ao fracasso, incluindo aí a morte de agentes de campo e informantes. Ou seja, o cidadão tem que criar laços de camaradagem pra se ajustar no papel de membro eficiente da comunidade de informações enquanto se dedica, na sombra da sombra, digamos assim, a sabotar os companheiros. Decididamente não é assunto pra reviravoltas relâmpago com caras e bocas de atores fracos. Aqui, nos livros de Le Carré, o problema não é se traiu ou não,  ao estilo machadiano da Capitu, mas quando, como e por quê.

O primeiro grande sucesso de Le Carré foi O Espião que Saiu do Frio e sua criatura mais famosa, George Smiley, aparece brevemente como controlador do agente Alec Leamas, posto "no frio" pelo serviço secreto britânico - ou Circus - após uma operação fracassada na Alemanha Oriental. "No frio", no caso, é simular (não sem alguma verdade) uma punição e pé-na-bunda sem honra concedido pelos empregadores ingleses - e assim atrair uma oferta pra virar a casaca.  Fôlego, vamos lá: o novo trabalho do Leamas então é simular traição pra poder plantar mentiras contra um agente prestes a descobrir um simulado agente duplo agindo pros ingleses do outro lado da mítica cortina de ferro. Ufa. Traição é feijão com arroz neste tipo de história, mas John Le Carré consegue apimentar bastante a coisa e parece lembrar o tempo todo que se a missão daqui é colocar gente falsa lá, a de lá é colocar gente falsa aqui - é parte do jogo.

Se prum típico romance de espionagem o nosso lado é sempre moralmente o mais adequado, deixando aos traídores as caraterísticas degeneradas do assassino frio, do mentiroso (onde todos mentem), do sacana mesmo, pros personagens do Le Carré tudo fica meio embaralhado e é o outro lado que parece mais atraente, moralmente inclusive, como o Magnus Pym de O Espião Perfeito - e sem precisar ser nenhum sociopata. Não parece acaso que os toupeiras de Le Carré sejam sedutores aparentemente ajustados no trabalho e na família, enquanto seus controladores ou caçadores, como George Smiley, são o oposto disso. E é Smiley quem vai protagonizar os livros seguintes.


George Smiley é desprovido de charme pessoal, baixinho, meio gordo (mais pra atarracado) do tipo mais chato do que agradável socialmente. Mas tem grande talento pras coisas do serviço secreto, as rotinas, as análises de personalidade, conferência de dados obtidos em campo, as longas esperas, idiomas e suas nuances, enfim, as coisas tediosas que não são exatamente as que aparecem nos livros e filmes de espião. Smiley é aquele  baita cdf que trabalha horas e horas pra conhecer todos os detalhes duma operação, aquele filho duma puta que deixa todo mundo no trabalho - os "normais", que esperam anciosamente dar 18h pra se mandar - emputecidos por ter de ficar lá no serviço até altas horas levando pastas de arquivos pro tiozinho chato, enquanto na casa de Smiley uma desamparada esposa não se inibe em procurar companhias mais dispostas a ficar na cama do que no escritório - incluindo aí colegas de Smiley.

Por duas décadas, até o começo dos 80, os livros acompanharam esse mundo de Smiley e seu oposto na KGB, Karla. Na verdade não me lembro de ler KGB, MI6 ou CIA nos livros, Le Carré usava  apelidos e jargões pra essas coisas, como Circus, oposição e primos - deve ser coisa de agente mesmo, sei que assim a coisa fluia bem melhor na leitura pois tirava o peso das denominações ultra manjadas, como MI6 e KGB. Smiley não lutava contra a KGB ou contra os soviéticos, mas contra a "oposição" liderada pelo agente de codinome Karla. Assim, por jargões, Karla não era lembrado como inimigo do capitalismo, da liberdade ou outro cliché qualquer, mas era o oponente de Smiley nas tarefas de infiltrar espiões lá fora, localizar os infiltrados aqui dentro e lidar com as informações obtidas.

Não sei se quem só viu o filme do Tomas Alfredson (Tinker, Tailor, Soldier, Spy - 2011) conseguiu dar conta das histórias todas que moviam Smiley na caça ao topeira de Karla com tudo tendo que caber nas duas horas. Mais ainda na relação antiga de Smiley com seu colega - que se revelaria o toupeira - quase seu alter ego, simpático, sedutor e bem enturmado, incluido aí a mulher de Smiley na turma. Como pra efeito de suspense o traidor teria que ficar encoberto no meio dos demais (apesar da velha norma de colocar um ator famoso num papel aparentemente pequeno pra descobrir-se facilmente o vilão) não foi possível aos roteiristas do filme explorar a relação dos dois espiões - o apagado Smiley e o iluminado traíra, ambos veterenos do serviço secreto, entrando quase juntos, disputando os mesmos espaços, construíndo (ou não) as relações e acessos ao topo do Circus. Smiley sempre na sombra do colega. É quase como se Le Carré e seu Smiley sem carisma, eficiente e burocrático perseguisse Ian Flaming  e seu espião brilhante e sedutor e, ao final, Bond/Philby se revelando o traidor.

A caça e a descoberta do infliltrado soviético no Circus na verdade só começava a saga de Smiley como protagonista. Nos livros seguintes ele, hora na chefia hora encostado, teria que lidar com a investigação lenta e trabalhosa da revisão de tudo quanto é informação obtida, sem saber o que foi ou não manipulado pela toupeira, enquanto preparava seu contra-ataque a Karla. Tudo sempre na surdina, sem grandes cenas de ação daquelas que seduzem produtores de cinema - e talvez por isso, enquanto os outros livros de Le Carré já foram filmados, somente agora um cineasta que parece bastante talentoso como o Alfredson (Deixa ela entrar) se propôs a por na tela grande um dos livros do Smiley. Enfim, gosto dessa coisa do Le Carré de tratar sem nenhum glamour algo tão idealizado pelos filmes e livros.

O primeiro livro dele que li - pelo critério democrático de ser um dos mais novos e com capa original da biblioteca - foi A Casa da Rússia, escrito já no final dos 80. Um filme foi lançado logo depois com, veja só, Sean Connery no papel principal - e ele não é o espião, ao menos no começo. Mesmo longe de ser um dos melhores livros, já deu toda pinta desse clima ao mesmo tempo tenso e banal dos agentes secretos. E também do jeito do Le Carré escrever, classudo, fluente e irônico, longe, muito longe dos clichés do bom contra o mal ou dos espiões superheróis - e não falo aqui apenas do Bond (que, no cinema pelo menos, já ganhou um ar de deboche), mas cansei de pegar livro de autor famoso que começa com o agente secreto já mostrando ao mundo sua habilidade física extraordinária, sua mira infalível ou sua espantosa memória fotográfica capaz de registrar a cor dum selo duma carta jogada numa pilha de revistas numa sala depois de ficar 15 segundos na casa. Não, esse não é o mundo dos agentes de Le Carré.

Fui pegando os outros livros, mais velhos e com a capa dura padrão das bibliotecas, e nunca me arrependi de separar um tempo pra ler um livro dele, mesmo os mais fracos como o último que li, O Canto da Missão, de 2006. Acho que, junto com O Jardineiro Fiel, esses livros do Le Carrré onde o personagem principal é um tipico herói do Hitchcock - o homem comum que de repente se vê no meio dum complô de espiões - perde aquela mitologia da guerra entre iguais dum mundo meio paralelo e vira um pouco o ingênuo aprendendo como o mundo é malvado. Prefiro o universo das traições recíprocas de quem sabe onde pisa, das guerras clandestinas, sem muito espaço pro moço ingênuo. Talvez o que eu goste mesmo no tratamento dado aos traíras em Le Carré seja a sensação permanente de que talvez, quem sabe, eu, você, nosso lado, não seja o melhor. As certezas todas ditas e reditas dia após dia podem ser construções ideológicas - no sentido marxista do termo, ou seja, não são mentiras ou apenas mentiras, mas partes da verdade ditas conforme interesse de quem manda, dos donos. Seja uma classe ou um partido.

Sem Smiley e já quase sem guerra fria Le Carré aprofundou-se ainda mais na tentativa de entender os motivos pra alguém mudar de lado. Dois livros são especialmente importantes: O Espião Perfeito e Nosso Jogo. Mas o troço tá ficando meio grande e como não vejo um fim à vista vou dividir em partes.

PS - A propósito, ainda estou me recuperando da "atuação" da atriz que fez a presidenta dos EUA nas últimas temporadas de 24 Horas. Pra contrapor essa interpretação bonzinho-de-repente-malvadão dos outros personagens, mandaram a atriz mostrar toda dor de ter que carregar nas costas o peso da paz mundial, sempre obrigada a tomar as decisões impossíveis. O resultado é uma presidenta que passa o tempo todo com conjuntivite, olhos sempre vermelhos e cheios de lágrimas em qualquer diálogo. Se comesse o tempo todo ia ser presa pela Jack Bauer por uso de substâncias ilegais. O roteiro não se esforçava em entender as nuances da traição e os atores ajudavam menos ainda.

PS 2 - Só pra constar, sobre os Emmys ganhos por Homeland, o seriado acabou vencendo Breaking Bad, que é muito melhor, incluindo aí os atores todos.

PS 3 - Vi agora uns episódios da segunda temporada de Homeland, apesar de ainda tratar bem da coisa da traição, a Claire Danes resolveu que chorar o tempo todo e agir como maluca é a forma de mostrar a luta da personagem contra o transtorno bipolar. Pode até ser mesmo assim, mas torra o saco de quem assiste, já to pulando fora.

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

Blackberry cansou?

Quando comecei a trabalhar em São Paulo alguns anos atrás fazendo uns bicos, era meio regra nas reuniões nos bairros chiques da cidade o ritual de colocar os Blackberrys na mesa logo no início. As caras sempre com aquela expressão de executivo(a) entediado com mais um compromisso chato e dando uma olhada no smartphone (nem sei se chamava assim antes) prum último contato com o mundo antes do sacrifício. Soube nessa época da fama da Blackberry de simbolizar uma pessoa poderosa, um executivo fodão.

Claro que tudo isso mudou em 2007 com o iPhone da Apple e, na sequência, as toneladas de modelos lançados pela Samsung com telas e preços pra tudo quanto é gosto. De chique e esperto a Blackberry ficou defasada, sistema operacional muito fechado (aí o IOS ganha fácil) e obsoleto, perdeu "agilidade" segundo os críticos, ficou meio gagá. 

Então soube duma megacampanha da marca agora em 2012 pra "reposicionar" a Blackberry de volta no topo, incluindo aí um mercado com potencial como o Brasil. Putz, prum publicitário deve ser meio que um sonho pegar uma marca famosona, que foi até fetiche há bem pouco tempo, com uma boa grana pra criar uma campanha pra dar a cara dessa nova fase fodona da Blackberry, mostrar a força do produto pras gerações mais novas, já meio acostumadas com ipod e iphone - ou seja, Apple - além dos galaxys todos, mantendo ainda uma pose classuda de quem tinha as manhas com os executivos. Material pra criar não faltava. 

E?  E....

Vejo o resultado nos intervalos da TV. O mote é todo mundo tem outro lado. Qual é seu outro lado? Não sei bem o que se passou na cabeça dos publicitários, talvez ressaltar um outro ponto de vista, uma nova oportunidade pruma marca que já foi simbolo de status e esperteza. 

E...

A propaganda mostra um tiozinho fardado pra pelada de fim de semana, dando um chute na gorduchinha - como trocentos milhões de brasileiros. A câmera foca o rosto do tiozinho, putz. Megaputz. A legenda confirma: todo mundo tem outro lado. Esse é o do João Dória Jr. 

Isso mesmo, o cara do movimento cansei. O cara de pastel que organiza e apresenta concurso de cachorrinhos de madame e fica na moleza numa ilha de caras da vida aparecendo vez ou outra com pose de executivo. Esse é o cara escolhido pra alavancar a Blackberry, mostrar a força e sinalizar ao mundo o ressurgimento da marca. 

Nem vou entrar no mérito do que exatamente é "todo mundo tem outro lado" pra quem fez essa campanha. Bater uma bolinha no fim de semana é outro lado de alguém? Outro comercial da mesma campanha mostra um ator da Globo vestido de boxeador e fazendo pose num ringue, isso é outro lado? Fazer boxe na academia? Se o cara for campeão mundial dos médios e eu não tô sabendo aí sim é "outro lado" prum ator. Mas definitivamente hobbys  tão comuns não são "outro lado", apenas completam o lado já visível. 

Qual é seu outro lado? Pergunta a Blackberry. Não sei, pra ser sincero, mas o outro lado, a cara nova da Blackberry parece ser meio afetada e cheia de botox dum playboy vazio.Te cuida Apple.


sexta-feira, 12 de outubro de 2012

Bola nas costas e amarelada do PT


Lembro que no começo do primeiro mandato de Lula em 2003, era discurso comum entre os petistas (e quem gravitava em torno) a necessidade de rever a política de regulação dos meios de comunicação. Entre uma série de motivos, o que imcomodava mesmo era a concentração do setor em poucas mãos, contrariando inclusive a constituição - como no caso do Grupo RBS que tem quase tudo de televisão, rádio e jornal no Rio Grande do Sul e Santa Catarina - ou seja, mesmo considerando todas as possibilidades, os "receptores não passivos" e etc, um grupo econômico determina o que é dito ou não e como é dito para população (ou boa parte dela) nestes dois estados e isso ainda importa, e muito. E as poucas mãos proprietárias definitivamente não iam com a cara do PT.

Porém a entrevista de Roberto Jefferson na Folha desencadeou o primeiro escândalo do mensalão e o governo dedicou-se mais a sobreviver do que mudar qualquer coisa - e, naquele momento, uma mudança radical na regulação da mídia poderia soar como retaliação autoritária aos que criticavam Lula na imprensa.

A partir do segundo turno com Alckmin em 2006 as coisas mudaram. Qualquer um que acompanhe as notícias nas revistas e blogues à esquerda tá cansado de saber todas as armas usadas pelos grandes veículos de comunicação - as tais balas de prata - pra defenestrar Lula, como fotos de dinheiro, suposto dinheiro em whisky de Cuba,  dinheiro na cueca, , sempre com PT e corrupção na legenda. Até Lula ao estilo gangsta rap apareceu numa foto na capa da Folha tipo mano na correria com a grana dos maurícios. Perderam e Lula ganhou uma força que não tinha e não perderia mais. Poderia, neste momento do segundo mandato, rever a concentração no setor de mídia. Poderia ao menos apoiar as iniciativas populares - como as rádios comunitárias - pra contrapor um pouco a hegemonia das corporações tradicionais. Porém Lula  preferiu, novamente, acomodar, acho que acreditando que quanto mais apanhava mais forte ficava e, com a vitória sobre Alckmin (e depois com Dilma ganhando do Serra) a campanha permanente da imprensa contra o PT - na aparência - já não machucava mais. Tremenda bola nas costas, numa metáfora futebolística tão a gosto do ex-presidente, que ainda vai cobrar a conta do PT.

Bola nas costas que mistura essa sensação de invulnerabilidade de Lula com outras motivações que posso especular aqui. Primeiro um desejo típico dos novos ricos de aceitação no clube dos quatrocentões. O PT ou sua cúpula parece sempre esperar esse momento mágico da aceitação - quando finalmente a imprensa fará o mea culpa e cairá de joelhos diante dos bons números do segundo mandato de Lula, recebendo com lágrimas nos olhos (ainda que de crocodilo) os novos donos do poder, convidados a fazer parte dos clubes de elite onde, se muitos petistas já são habitués há um bom tempo, parecem mais tolerados que outra coisa. E tolerância, diferente de aceitação verdadeira, tem prazo de validade. Né Zé Dirceu?

Segundo, uma amarelada mesmo, no melhor jargão do futebol. Parece mais fácil enfrentar os poderosos quanto se está no poder.  Mas é aí que se tem muito a perder. Deve dar medo aos petistas, colocados agora em posições importantes, levar a cabo propostas das décadas anteriores, ainda combativas e arriscar virar, inevitavelmente, a póxima capa da Veja com fundo em vermelho e um polvo. Deve assustar. Melhor assoviar, bradar indignação nos bares com os companheiros. Fazer o que é preciso pra mudar, nada.

O lulismo - como bem definiu o Andre Singer - não é o petismo muito menos dilmismo  e a série de fatores que provocaram uma intensa ligação entre Lula e as camadas mais pobres da população brasileira - além de setores que já simpatizavam com o PT (mesmo que parte grande da classe média, como aponta Singer, tenha saído da órbita do PT) dificilmente se repetiriam com outros nomes, mesmo Dilma e sua grande populadidade no momento. A aparente invulnerabilidade não vai durar e tende a dminimuir bastante conforme a influência de Lula perder a relevância, não amanhã ou depois, mas não ser presidente da república, quer Lula queira ou não, implica necessariamente em diminuição substancial de influência, mesmo com seu partido e sua protegida no cargo. O PT não é Lula e Dilma não é Lula. Quero dizer com isso que uma campanha permanente da imprensa contra o PT (e depois muito provavelmente contra  Dilma) não vai fortalecer o PT ou Dilma como fortaleceu Lula, a lenda não é a mesma e todo mundo sabe disso.

A agenda do primeiro turno das eleições municipais em 2012 acabou com qualquer dúvida de aceitação,  trégua ou autoreflexão dos meios de comunição que parte dos críticos esperava após a derrota de Serra em 2010. Não só essa autorreflexão não vai vir como o oposto é bem mais provável: sem Lula vão bater abaixo, acima, por dentro, por fora e do jeito que for possível pra enfraquecer Dilma e o Partido dos Trabalhadores. Até Lula, fora do poder ao menos formalmente vai ser enfraquecido. Diante desse cenário a acomodação do PT é vista, por exemplo, na colaboração de parte do partido pra abafar a participação da imprensa na CPI que investiga o Carlinhos Cachoeira ou na disposição dos petistas em dar entrevistas e assinar artigos nos mesmos veículos que se esforçam pra tirá-los do poder. Um espaço legítimo ocupado pela esquerda nos veículos conservadores, dizem os acomodadores que sempre têm algo a dizer. Prefiro pensar em um exercício de ego petista que vai de encontro a necessidade de falsear a pluralidade destes veículos - a conta fica assim: num jornal 10 colunistas batem no PT. As capas todas tem manchetes (como a onbusdman da Folha apontou) enviesadas contra o PT, mas a Marta escreve uma vez por semana e temos a tal pluralidade. E a coisa se repete nos outros veículos - desde que não haja exagero, como mostrar o avanço das políticas de inclusão social sob Lula, que causou a demissão de Maria Rita Khel do Estadão. Na Veja acho que ninguém remotamente ligado às esquerdas participa. Eu é que não vou chegar perto da revista pra conferir.

Dilma começou seu governo entregando a cultura ao Ecad, cortando os poucos avanços de Lula na regulamentação das comunicações e visitando sorridente as sedes da Abril, Folha e Globo (convidada pelo Louro José). Não creio que alguém que encarou a luta armada contra ditadura e ficou anos na cadeia sob tortura possa ser chamada de covarde, mas o debate sobre a importância da cultura é antigo nas esquerdas e Dilma parece ter a visão comum, à direita e à esquerda (parte, ao menos), de que crescimento econômico por si só garante apoio político. A cultura, nessa visão (e que parece determinar a política atual) é assunto menor e vai a reboque do desenvolvimento. Erro grave quando parte expressiva dessa cultura ganha sobrevida graças as "parcerias" com o grande capital através da Lei Rouanet. E uma cultura hegemônica reacionária vai necessariamente redundar em escolhas eleitorais reacionárias - sim, sei que a conta não é matemática, não é exata, mas não é desonesto supor que um ambiente cultural cada vez mais reacionário vai beneficiar, nos momentos de manifestações públicas, como o voto, os que justamente se sentem "em casa" nas capas da Veja e no Jornal Nacional. Se não garante vitória, mantém no páreo muito candidato cuja retórica faz inveja a qualquer general de pijamas num dos encontros patéticos do clube militar.

E esse movimento se dá em dois sentidos: o mais óbvio é a escolha de candidatos abertamente reacionários pelo eleitor - e a roupa fascista vestida por José Serra dá medida dessa escolha. Noutro sentido os partidos de esquerda sentem necessidade de agradar as faixas reacionárias do eleitorado, suavizando seu discuso, amansando e, com o tempo, acovardando-se a cada buuuhh das bancadas ruralistas e religiosas contra propostas minimamente necessárias para preservar o meio ambiente ou acabar com o uso de um livro de mitologias da antiguidade como legislador do que pode ou não pode pra "família brasileira". Covardia é a chave aqui. E nisso o PT tem se mostrado sempre solicito, aceitando, por exemplo, que os adeptos do livro mitológico obstruíssem a distribuição de material contra homofobia pelo Ministério da Educação. A manobra covarde deu status e importância ao pastor Silas Malafaia, homofóbico ao extremo e "vencedor" na campanha que moveu contra o que chamava kit gay (esse povo acha que qualquer coisinha faz alguém "virar gay", eu heim, que medo, coceira no forevis diria Muçum).  O Malafia fortalecido pela covardia do PT agora berra sua raiva pra destruir...o PT e Haddad em São Paulo. Bola nas Costas é exatamente isso.

Enquanto isso o governo do PT continua com sua Polícia Federal ainda dedicada a fechar rádios comunitárias e a garantir o monopólio da informação pra quem quer acabar com o PT. E o problema aqui, pra mim, não é o PT ou o fim do PT, mas os ataques ao partido são justamente ataques dos setores hegemônicos a qualquer tentativa de mudar os princípios da cartilha (neo)liberal que construíram o caráter da mídia e seus jornalistas e ainda pautam as coisas aqui, mesmo depois de tudo ter dado errado no mundo por causa dessa cartilha. Conforme relatório da SECOM do governo federal é o próprio governo petista que dá sustento a mídia hegemônica com os gastos de publicidade do poder público e das estatais. Parabéns, dar a outra face não está no tal livro de mitologia? Dar a outra face e ainda pagar pra apanhar mais já cai na esfera do fetiche, da roupa de couro e chicote. Aos que argumentam que essa escolha é técnica, tomada conforme dados de níveis de audiência ou vendagem blablabla,  não é bem assim e é justamente a concentração do setor que se traduz em audiências altas, um circulo viciado que com internet e outros meios poderia ser quebrado. E sobre os dados que justificariam os gastos com publicidade em determinado veículo, conheço três pessoas que não conseguem parar de receber Veja, e de graça, já tentaram cancelar a assinatura várias vezes e não conseguem. Muitos outros devem estar nessa situação. Com certeza estão na conta de tiragem da revista usada pra justificar a publicidade do governo federal e das estatais.

Leio na manchete do UOL que uma segunda fase do julgamento do mensalão vai investigar a relação de Daniel Dantas - o cara da privataria tucana que ninguém nunca fala na grande imprensa - com o... PT. Bem feito de novo, pro partido aprender que se ficar apanhando quieto vai acabar, junto com o PFL, nas listas de extinção (quem imaginava o PFL extinto 15 anos atrás?).  Não apanhar quieto neste caso não é ficar berrando contra a imprensa nos comícios, muito menos fechar jornais ou perseguir jornalistas, mas fazer de fato uma reforma na regulação do setor, acabar com a concentração, fortalecer projetos comunitários ao invés de criminaliza-los, promover formas de democratização e acesso a filmes e livros ao invés de colocar o Ecad dentro do governo, oferecer conteúdo alternativo e de qualidade sem preocupação com audiência na TV Brasil.... Esse seria um destino muito mais inteligente pra imensidão de dinheiro público até aqui tradicionalmente torrado com campanhas publicitárias desnecessárias e que sustentam os donos da mídia. Oito anos de Lula e dois de Dilma não indicam quase nada nesse caminho, só a amarelada de sempre. Quando a derrota grande vier e a fúria eugenista da imprensa agir livremente pra "limpar" o cenário dos políticos petistas, quem teve toda chance de desconstruir esse cenário vai ficar chorando pra ninguém.

PS - Cabe aqui uma emenda. Não me importaria nem um pouco com o fim do PT se este fosse determinado à esquerda, por exemplo com um novo partido que representasse melhor os movimentos sociais, os trabalhadores, as minorias e os miseráveis - que não tremesse a cada gritinho histérico dado pelos reaças sempre que um movimento em direção a justiça social é sequer proposto. Não vejo isso possível tão cedo, infelizmente. A oportunidade histórica está(va) com o PT e sei com certeza que seus críticos nas corporações de mídia querem exatamente o que eu não quero: acabar com os movimentos sociais, criminalizar a pobreza, explorar as minorias pelo ódio ou pela ridicularização. Se o PT já não é meu partido há muito tempo, é quem ainda pode impor - pela expressiva força eleitoral conquistada - aos donos de tudo uma derrota muito mais profunda do que um ou outro revés eleitoral. Mantidas as estruturas de dominação (como a citada, repetida e recitada concentração da mídia em poucas corporações) cedo ou tarde os donos de tudo vão poder contar novamente lá no planalto com um membro do café society - desses legítimos, com DNA de rico, como diriam numa entrevista descontraída pro Amaury Jr (o do botox, não o da privataria), copo de whisky na mão, frases sem sentido de quem bebeu muito e o riso meio débil de quem sabe que sempre vence no final.

sexta-feira, 5 de outubro de 2012

Esquerda e direita

Lula disse que depois de certa idade continuar "de esquerda" é tolice - ou algo assim. Pode ser. Talvez pra demonstrar isso escolheu pras vagas no Supremo Tribunal Federal um monte de brucutus de direita. Esses, que certamente não acham tolice ser de direita com certa idade, montaram o circo do mensalão. O mesmo STF que tá cheio de processos encalhados (e que tá deixando prescrever, olha só, o mensalão do PSDB) pôs o mensalão na frente e marcou o julgamento, tão ao gosto da grande imprensa, exatamente no começo da disputa pelo primeiro turno das prefeituras - chegando ao caso específico do belzebu da mídia, José Dirceu, exatos dois dias úteis antes da votação. É, a direita não acha tolice ser de direita e Lula vai continuar sem entender a oportunidade que perdeu.

PS 1 - Tudo bem que achar alguém, digamos, progressista no quadro de candidatos ao STF não deve ser fácil.

PS 2 - Falando em oportunidades perdidas, Lula aparece indignado na imprensa com o cancelamento do debate na Globo de São Paulo, acusando manobra pra prejudicar seu candidato Haddad - que já tava recebendo a conta de todo bafafá diário do julgamento do mensalão no STF. A imprensa ou seus donos não acham tolice ser direita, mas a isso voltamos num post maior.

quinta-feira, 4 de outubro de 2012

Bond versus Bauer


Uma das alegrias do ócio é poder me dedicar com empenho a certas atividades impossíveis em épocas de fechamento de texto. Munido de uma internet rápida (de uma pequena empresa local, muito mais rápida e barata do que qualquer velocidade fodona da Net) e a Netflix, pude rever em sequência - e em HD - os filmes do James Bond. Já tinha visto todos, mas fora de ordem e boa parte deles há muito tempo. Aproveitei também pra terminar de ver uma série da época que tinha TV a cabo e a FOX não dublava tudo, 24 horas. 

Comecei a ver as duas séries - cinematográfica e televisiva - meio por acaso, mas ainda nos meados de dois mil quando assisti pela primeira vez as correrias sem fim do Jack Bauer já tinha atinado pra esse status do Kiefer Sutherland virado num James Bond completamente obcecado, um psicopata desprovido de charme e qualquer vestígio de humor. Não por acaso o psicopata sem humor também é o próprio Bond a partir de Daniel Craig, numa reapropriação da cultura sisuda da ex-colônia em prejuízo do velho humor debochado do ex-império.

Revendo os filmes antigos deu pra lembrar como nada era levado a sério. Principalmente o período de Roger Moore como o espião do MI6. Em muitos momentos o super herói escapava das armadilhas cartunescas como num episódio do scooby doo - numa cena clássica Bond é deixado numa ilhota no meio dum rio de jacarés e foge correndo pisando sobre os bichos. É, exageravam no deboche, quase chanchada, meio como o seriado do Batman dos 60, mas, como no seriado em comparação aos filmes do homem morcego de hoje, é meio estranho quem leva tão à sério um cara vestido de morcego combatendo o crime ou um superespião que ganha todas as mulheres e nunca morre. Autodeboche é sempre uma virtude e Jack Bauer nem desconfia do que se trata. 

O único humor do agente de contraterrorismo americano está exatamente na absoluta ausência de humor. É humor involuntário, acho que só funciona pra quem assiste temporadas em sequência e pode acompanhar a fúria de Jack sempre pronta a arrancar "informações necessárias", custe o que custar. Terroristas, supostos terroristas, não terroristas, amigos, irmão, crianças, cães, gatos, elefantes, cedo ou tarde todos vão sentar numa cadeira diate de um furioso Jack Bauer pra confessar algo, qualquer coisa. Um fio desencapado, literalmente. 

Nestes momentos o pastiche sai das peripécias de Roger Moore pra encarnar na seriedade com que é tratado um psicopata como Bauer. Não deixa de ser curioso que, depois de participar das últimas temporadas do Rambo da era Bush Jr, um dos roteiristas de 24 horas, Alex Gansa, tenha conseguido realmente embaralhar as coisas entre certo e errado com alguma profundidade na série Homeland de 2011. Voltando pra série de Jack Bauer, a coisa funcionava assim: vamos construir um cenário ultraconservador com uma pitada aqui outra ali de dúvidas liberais pra mostrar nossa "complexidade" e legitimar a insanidade do Bauer. Falando assim parece até a Folha de SP. Então a unidade de contra terrorismo podia fazer qualquer coisa, qualquer coisa mesmo, pra lidar com ameaças, mas tudo bem, os presidentes ao longo das diversas temporadas eram negros (dois) ou mulher, todos bem intencionados (exceto quando os vices assumiam, geralmente comprometendo a pureza dos votos). Toques democratas em ações republicanas. Nisso, aliás, foi profético com Obama. Claro que em 24 horas a ameaça é sempre real, portanto, Jack é obrigado a fazer tudo que faz, está sempre certo mesmo quando erra. Sabemos que fora da TV as ameaças nem sempre são reais, armas de destruição em massa não são armas de destruição em massa, mas os princípios - medo e pânico permanentes - funcionam pra fazer tudo que fazem e a existência duma prisão como Guantanamo resume bem isso.

Em comum, além do crachá de um serviço secreto, pouca coisa, mas Jack e Bond partilham do pavor ocidental do uso pela oposição de armas nucleares em seus respectivos territórios de proteção. Bond, no cinema ao menos, nasce sob a crise dos mísseis em Cuba. A chance de tudo acabar num botão é o verdadeiro inimigo, o que realmente movimenta o espião britânico. Bauer nasceu do 11 de setembro e a paranóia com o ataque dentro dos EUA por forças não convencionais e armas idem, principalmente nucleares. Não saber quem vai atacar é a virtude explorada pela série e o que movimenta cada temporada com as constantes voltas e reviravoltas - as vezes dentro dum mesmo capítulo o inimigo muda completamente e o ex-rival passa a ser um dedicado aliado enquanto aliados revelam-se traíras malvadões, numa demonstração clara da dificuldade de entender a complexidade dos motivos. Mas, como um noveleiro que nunca fui, acabo curioso pra saber o que se propõe para conclusão na sequência da reviravolta-de-todo-final-de-episódio. Perde-se complexidade, ganha-se na agilidade (meio desonesta, como suponho que seja no caso das telenovelas daqui). 

Agilidade, aliás, é a força da série, pro bem ou pro mal. O tal Tempo Real (é uma marca registrada mesmo, real time) que se propõe a contar o dia de Jack hora a hora como se estivesse acontecendo, sem avanços ou retrocessos, foi uma das novidades introduzidas pelo seriado, mas também uma limitação muito grande. No começo era legal ver horas e minutos passando corrido numa disputa frenética de Bauer contra algum deadline, mas, temporada após temporada, a coisa ficou meio ridícula. Como tudo tinha que caber num dia, num único dia, coisas que levariam meses acontecem em minutos. Numa das temporadas, acho que a penúltima, a filha da presidente resolve encomendar o assassinato de um prisioneiro que vai ser posto em regime de delação premiada e, portanto, receber nova identidade. O prisioneiro já está escondido e sob forte proteção, no entanto, poucos minutos depois do primeiro telefonema pra encomendar o serviço o atentado já é executado. Em qualquer telefonema, sempre de vida ou morte, de Jack pra pobre Chloe (sua suporte técnica na sede da agência) informações que levariam dias são exigidos em segundos. E atendidos. Mas enfim, são tantos exemplos dessa liberdade com o cronômetro que ou você releva ou não assiste nunca mais - isso me lembra quando fui assistir ao Godzilla do Emmerich e um cara na poltrona de trás ficava indignado o tempo todo (em voz alta) com os furos do roteiro. Uma hora não aguentei e virei pro cara: "meu, é um filme dum dinossauro correndo pra lá e pra cá em Nova Iorque, e daí se a arma tem capacidade de sei lá quantos tiros? Se um carro não conseguiria parar dessa forma? Relaxa cara, ou sai". É exatamente assim com o tempo em 24 horas.

Sobre Bond, espero que com outro ator retome logo a capacidade de rir de si mesmo, ou vai ficar datado. Com o Craig acho difícil, ele já deu a cara que queria pro espião (pra ser honesto, se eu tivesse pegando a Eva Green e tirassem ela de mim daquele jeito ficaria realmente muito puto). Um Bond  muito sisudo e agindo sempre com obstinação, sem pausa prum champagne com uma bondgirl meio pelada vai ficar preso a um espaço muito curto na linha de tempo da cultura da própria série, exatemente como o Bauer do seriado, produto típico de um evento. Que voltem logo as bondgirls e o autodeboche e que Bauer seja posto numa camisa de força e rápido, afinal Sutherland quer um filme pro cinema com o personagem.

PS - Sobre dublagem, muita gente boa apontou o elitismo dos inimigos de filmes e séries dubladas. Imagino mesmo as várias manifestações pedantes desse povo nos feices da vida, estilo classe média sofre, classe C tem que ir por inferno.... Mas eu mesmo não consigo ver filme ou série dublados. Primeiro porque acho importante o trabalho de voz do ator/atriz e a dublagem, por melhor que seja, perde totalmente isso. Como não vejo nada dublado desde os 90 não sei como anda, mas nos 80 e 90 eram 4 ou 5 dubladores revezando todos os atores principais. Quase todo mocinho falava como o He-Man ou o Bruce Willis. Os sotaques de qualquer personagem, dum escocês ao caipira estadunidense variavam do carioquês ao paulistanês e daí vem o segundo motivo deu não ver filmes dublados: gosto de acompanhar as coisas da cultura pelo que vejo no cinema ou séries. Realmente gosto de ver um filme que se passa na Alemanha com gente falando alemão, de ver um personagem iraquiano dum seriado com algum sotaque iraquiano, mesmo um sotaque canastrão. E se hoje consigo ler razoavelmente no idioma de Shakespeare não é por nenhum fisk, CCAA ou coisa assim, mas por te visto toneladas de filmes dos 14 aos 20 anos (graças ao video clube e aos VHS não originais). Enfim, se boa parte prefere os dublados beleza, mas poxa, mantenham opções pro som original, de madrugada que seja na TV, sessões alternativas nos cinemas. Esses dias fui  num cinema de Maringá e não tinha nenhuma sessão com som original, pra nenhum filme. Tudo dublado. Se bobear com a voz do He-Man ou Bruce Willis.

PS 2 - Falei que as reviravoltas de 24 horas eram meio desonestas, explico. Não mencionei a telenovela por acaso, lá sabe-se desde o primeiro capítulo que muita coisa vai acontecer pra, no final, o mocinho acabar na igreja com a mocinha. Na melhor tradição de mudar pra ficar na mesma de Lampedusa. As reviravoltas na trama de uma temporada de 24 horas são tão obrigatórias que ficam previsíveis. Pra piorar, essas mudanças radicais na motivação dos personagens não resistem a uma reprise. Quase todo mundo que viu Sexto Sentido foi ver de novo pra provar que o final era furado, mas não era. Revisto o filme, o roteiro dava todas as pista pro final e logo uma leva de filmes tentou reciclar a "surpresa no final" com resultados muito ruins, principalmente porque quando revistos os roteiros davam pistas enganosas (e não no bom sentido do suspense), trapaceando mesmo, só pra provocar um ohhh no final. As reações dos personagens de 24h, quando sozinhos (tipo após desligar um telefone) continuam falsas. Um personagem que está falsamente preocupado com outro quase chora após saber que aquele está em perigo ou pode ter morrido. Isso sozinho, sem ninguém pra precisar convencer. Anunciada a conversão óbvia do personagem, mesmo que só pro espectador, as atitudes do personagem mudam bastante também, de repente já não é preciso fingir pra câmera. O irritante excesso de compaixão de antes agora vira um irritante olhar frio do tipo sou um dos malvadões fodões e te enganei fingindo pra você, espectador.

PS 3 - A melhor coisa do seriado do Jack Bauer é a personagem Chloe O'Brian. Os ataques terroristas podem falhar mas a cara emburrada da Chloe nunca deixa na mão (põe no chinelo a atleta americana que não ficou muito feliz com a medalha em Londres), e a expressão amarrada vem acompanhada de uma absoluta falta de habilidade pra se relacionar com seus colegas de trabalho. Chloe é a verdadeira  marca da série.

Chloe explicando pro ex-atual-marido porque vai fuder com a vida de todo mundo e principalmente a dela pra salvar o Jack Bauer pela milésima décima quinta vez e em troca não receber nem um "valeu aí".


Mckayla Maroney mostrando que o importante é competir e tá muito feliz com a prata.

quarta-feira, 3 de outubro de 2012

Enfia o microfone em outro lugar

Se todo mundo parece meio incomodado com os palavrões berrados pelos técnicos nas partidas de futebol transmitidas pela Globo/SporTV, pra quê botar o maldito microfone ali então?

Ano após ano a coisa se repete, putaqueopariu, tomar no cu, porra, caralho são tão ouvidos nas transmissões de futebol quanto cruzamento, passe, chute, finalização. Narradores e comentaristas meio que desconversando, mudando de assunto pra falar por cima dos palavrões ouvidos com nitidez ao fundo. Depois dos jogos aqueles rituais puritanos, pessoas reclamando, mandando cartas pra TV. Se os palavrões não me incomodam, alguém berrando o jogo inteiro torra o saco. Somado aos berros do narrador então. Realmente não faz sentido um microfone ali na boca do técnico, comprometendo inclusive a única utilidade do nosso popular repórter de campo que poderia, entre as as inúmeras bobagens que costumam falar ao pedir (com insistência) a palavra, resumir o que está dizendo o técnico pros jogadores do time. Ao invés de tirar a porra do caralho do microfone dali, narradores perdem tempo pedindo "educação" aos técnicos - que, por sua vez, deveriam mandar os narradores tomar no cu pra poderem trabalhar em paz. Como não escuto técnico berrando nas transmissões de futebol fora do Brasil, imagino que esta, como o repórter de campo, seja uma contribuição só nossa para dar ao preguiçoso sentado na poltrona assistindo o jogo pela TV um pouco do "clima do estádio", por algum motivo que desconheço tão valorizado pelos narradores nas transmissões esportivas. Em breve a Globo vai providenciar filas pra entrar, sacos de mijo jogados na cabeça, balas de borracha e safanões da PM, tudo no conforto da sua sala. Tem coisa que é melhor deixar lá no estádio.