quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

Escolhas

Não costumo assistir os canais abertos. Não é frescura, mas acho tudo muito bobo mesmo. Sem cabo, a minha TV fica restrita aos filmes e séries baixados da internet ou na netflix (e um pouco de videogame). Mesmo os jogos de futebol, tento ver na TV mas com som do rádio ou da internet, com paciência zero com os narradores e comentaristas da globo/band - o que torna incompreensível o exílio do Milton Leite no Sportv, enquanto os malas do Luis Roberto, Galvão e Cleber Machado (esse menos mala até, mas a parceria com o Caio Ribeiro e Gaciba e seus clichés todos derruba a transmissão) assombram o futebol da globo. Duro de entender mesmo é essa opção da TV pela afetação extrema. Assisti o jogo Fluminense  x Grêmio ontem com o insípido Luis Roberto narrando e, talvez no clima do carnaval recém finado, o onipresente camarote de celebridades, comandado pelo Alex Cala a Boca Escobar. Não entendo mesmo essa opção pelas celebridades vazias (tiro dessa lista, obviamente, o mítico Chico Diaz, que estava no camarote, camisa do fluminense, meio deslocado, até pelo chocolate aplicado pelo Grêmio), pra ilustrar "a emoção do torcedor apaixonado". Não têm milhares de torcedores apaixonados de verdade no estádio? Pra que ficar mostrando o fulano da novela das 8? Não pode ser uma pessoa comum a ter emoções verdadeiras. Não, tem que ser um ator de segunda linha da Globo (fora o Chico Diaz) - que não consegue passar emoção nem no seu papel na malhação, que dirá vendo futebol - pra mostrar pra quem vê futebol pela TV o que é torcer de verdade. Precisava mesmo do Mocotó ou sei lá quem pra me ensinar a torcer.

Um exemplo dessa afetação tornada obrigatória é o próprio Escobar, um comentarista até divertido no Sportv, virado, agora na Globo, num bobão supremo, na linha quanto mais engraçadinho sem cérebro melhor que contamina o esporte no canal. Dunga cometeu muitos erros na seleção, mandar o Escobar calar a boca não foi um deles. Além da afetação, uma sonolência mental domina as informações e comentários das transmissões globais. O repórter de campo (essa função completamente inútil)  Eric Faria (o que sai comemorando gols de times cariocas, faltando só entrar na dancinha) "revelou" que o grande "intelectual" Carlos Alberto Parreira chamava o meia Zé Roberto de "facilitador", lá na distante copa de 2006 (a mesma que o técnico intelectual permitiu que um ataque com dois jogadores pesando 120 kg cada afundasse o time). O termo facilitador é já velho conhecido do mercado de charlatões que povoam as palestras motivacionais, Luis Roberto, claro, adorou a novidade e passou a referir-se ao pobre Zé Roberto (o melhor em campo, junto com Barcos) como facilitador. É a clara escolha da Globo, tendo Milton Leite, Maurício Noriega e Paulo Vasconcellos escondidos no time do Sportv, pela estupidez afetada na sua transmissão. É futebol pra quem vota no Big Brother, que irrita quem só quer ver um jogo de futebol. A escolha foi esta e, claro, não fica restrita ao futebol.

Acordo no dia seguinte, faço o que nunca costumo fazer, ligo a TV. Passa um programa chamado Bem Estar (ou algo assim) na Globo, a matéria é sobre a importância de comer feijão, com pessoas de jaleco dizendo pras pessoas de casa (eu incluso) o que elas devem comer, como, quanto, de que forma, com que cor, com que acompanhamentos... - numa espécie de religião disfarçada, com pastores de jaleco te iluminando o caminho da sabedoria do prato de feijão. Pra dar o clima da matéria, duas repórteres mostravam, em restaurantes do Rio e São Paulo, o hábito "brasileiro" (sempre é o brasileiro, esse ser único materializado) de comer feijão todo dia. Absolutamente tudo é falado da maneira mais afetada possível, a repórter de São Paulo então, parecia que estava num palco de um musical da Broadway, com gestos, caras e bocas. Nada é dito com simplicidade e informação, tudo tem que ser teatral, superlativo, importantíssimo, fatal...Prestem atenção em mim, por favor, não olhem pro outro lado - parece implorar a retórica hiperativa.

Isso tudo deve ser a norma hoje na TV, a julgar pela minha vontade de vomitar, em contraste com a tranquilidade que vejo todo mundo acompanhando na boa - e me olhando com estranheza, talvez pela cor verde da minha cara pré-vomito no momento, e clara impaciência, comigo, que só quero desligar a TV.

PS - Soube dia desses que a globo colocou uma tal de Luiza Possi, uma cantora pop dessas, pra comentar  (!) a transmissão de futebol. Que fase, diria Milton Leite. Assim até o Neto da band vira um João Saldanha.

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

A tortura de ler James Patterson

Terminada a tese algum tempo atrás, fui procurar um tipo de leitura que me fazia muita falta: a novela policial. Como tava por fora da coisa, dei um google e descobri alguns autores da moda,  um tal Stieg Larsson e sua trilogia Millenium e um cara chamado  James Patterson com uma porrada de livros. Li os livros do Larsson na boa, gostando de algumas coisas, não gostando de outras, achando o personagem principal (o jornalista) um tremendo bocó, gostando da ciberpunk mas meio de saco cheio dos seus superpoderes, bom passatempo, nada mais, nada menos, com um ponto considerável: o bom clima nórdico pra esse tipo de histórica, com seu frio e perversidade oculta na aparente normalidade duma sociedade com boa distribuição de renda. Esses dias caiu na minha mão um livro do Patterson, O 5° Cavaleiro. Pelo sobrenome achei, a princípio, que fosse da estirpe dos autores de livros de crimes daquele canto da Europa. Errado, é americano, "o autor de suspense número 1 do mundo" diz a capa, devia ter sacado a encrenca e, na verdade, já estava com o pé atrás pela edição do livro, bem ruinzinha, mas li uma coisa meio elogiosa na Folha sobre o Patterson e coisa tal, vamos ver.  Ainda bem que não paguei. Talvez a pior coisa que já tentei ler na vida.


Não consegui chegar até a metade e não gosto de ser injusto, pode ser que seja seu pior livro, pode ser que a segunda metade que não consegui atingir seja excepcional, mas duvido muito. Pela porcaria imensa que vi até aqui é pouco provável. O livro de pouco mais de 200 páginas é dividido em uns 100 capítulos. Média de duas páginas por capítulo. Aliás, olhando bem, parei na página 91, capítulo 65, uma página e meia por capítulo. Se tenho que dar parecer prum texto acadêmico, vejo de cara os métodos de enrolação pra dar volume mínimo, uma página e meia por capítulo é pra charlatão de autoajuda nenhum botar defeito. Só por isso já vale um adeus definitivo, é muita falta do que dizer pra alguém que, supostamente, quer contar algo.

Cada parágrafo é uma exposição de dois ou três clichés, cada frase é um lugar comum, cada personagem é descrito com profundidade de colunista de cultura da grande mídia que "viajou a convite da empresa tal". Deve ser a fase romance policial pra leitores de Crepúsculo. Os diálogos são inacreditáveis, quase todos com uma palavra escrita com letras repetidas, como nããããooo, juraaaaaa, dando o perfeito tom pruma conversa de adolescentes afetadas - pro que seria uma reunião de superprofissionais com mais de trinta anos, incluindo aí uma tenente de homicídios, uma médica legista, uma jornalista e uma advogada, todas super-bem-sucedidas, supercompetentes e todos todos os super possíveis. Cada nããããooo escrito dessa forma e posto num diálogo dói na cabeça de quem lê (e já passou dos dez anos de idade). No mais, crimes rotineiros (pra livros de suspense), trama banal e - o verdadeiro crime do livro - todos os personagens são insuportavelmente chatos. Sabe aquele conhecido, profissional muito bem-sucedido no mercado financeiro, advogado ou coisa do tipo, que senta na tua mesa no bar e só fala banalidades? Pois é, todos os personagens do livro são variações dessa pessoa chata. Crimes e trama podem, eventualmente, melhorar na metade final - até porque piorar vai ser difícil. Os personagens certamente não vão ficar menos chatos, e isso mata o livro.

Não gosto de parar um livro no meio, vou respirar fundo, quem sabe consigo vencer a outra metade, mas deu de cair na mão As Benevolentes do Jonathan Littell e, putz, não vai rolar voltar pra porcaria do Patterson. Crime por crime vou ficar com os da SS na Segunda Guerra. Sei bem que são mundos e pretensões diferentes, que o Patterson nunca vai querer escrever coisa séria, ganhar os prêmios que o Littell ganhou, tá feliz da vida vendendo um monte, mas cresci lendo Agatha Christie, Conan Doyle, John Le Carré...e, convenhamos, dá pra fazer coisa muito boa nesse mundo do suspense popular. Patterson não dá.

Ufa!

quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

Descrições

Toca o telefone, atendo.

É do aeroporto? Pergunta uma moça.
Não, respondo. Aqui é minha casa.
Ahh, queria ver uma passagem pro meu chefe, você por acaso não sabe o número do aeroporto aí? Tô noutra cidade, por favor. 

(Obviamente numa época pré-internet)

Posso dar uma olhada na lista sim, sem problema (já reparando que a voz da moça era muito bonita).

Achado e passado o número, a conversa continuou animada. Papo vai, papo vem, entramos no tradicional momento da descrição pessoal, já antecipando um provável encontro, pois as cidades eram bem próximas. 

Então ela começa.

Olha, sou loira, alta e tenho olhos verdes.

Cometo aí uma das minhas tradicionais grosserias, dessas que o pensamento só chega muito depois da fala.

Ahh tá, no telefone todo mundo é loiro, alto e tem olhos verdes ou azuis.

Sim, estupidez que a pouca idade poderia desculpar, não fosse esse um comportamento habitual ainda hoje, quase vinte anos depois. Estupidez muito maior pelo desdobramento previsível do diálogo.

Pois acredite se quiser (brava). E você bonitão (mais brava do que irônica)? Como você é?

Somente ali percebi o tamanho da besteira que tinha dito.

Putz, bom, na verdade eu sou loiro, alto, olhos verdes. Mas uso óculos viu.

segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

Violência cai em Pinheirinho depois de reintegração, diz a Folha

Genial a manchete da Folha, que "ouviu alguns moradores" pra constatar (e botar na capa do UOL) que a violência diminuiu depois da reintegração (eufemismo pra massacre injustificado contra mulheres e crianças). A Folha dá sua receita pra resolver a questão de segurança pública: tropa de choque expulsa os pobres na porrada e um anos depois entrevista o dono da padaria pra dizer que a coisa melhorou muito. Imagino esta Folha de hoje cobrindo a Segunda Guerra: Cai o número de judeus mortos por ataque do coração após Auschwitz.

El Rey

Em 2014 teremos a honra de alcançar o México no futebol. Não exatamente dentro de campo, mas promovendo uma copa do mundo que irá coroar o melhor de todos no futebol. Em 70 os mexicanos deram a coroa pro Pelé. Em 86 foi a vez do Maradona. Ano que vem vamos desempatar essa coisa coroando Leonel Messi como o maior. 

Maradona e Zico foram os dois maiores jogadores que acompanhei. Zico perdeu as copas de 78, 82 e 86. Maradona arrebentou com a copa de 86 e, somando o que fazia pelo Napoli resolveu a disputa com o Zico (e Platini, Rummenigge...) ameaçando o reinado do Pelé no topo do mundo futebolístico. Nunca vi Pelé jogar e pelos números e imagens antigas deve ter sido espetacular. Mas hoje o mundo todo vê Messi arrebentar jogo sim, jogo também. Nunca tinha visto isso, o cara joga bem, muito bem, espetacularmente bem todo santo dia. Já tá todo mundo colocando o Messi como o maior de todos, claro, pra fúria dos cronistas mais antigos aqui do Brasil.

Pro meu gosto Messi carrega uma imensa vantagem: é quieto. Pelé e Maradona são dois chatos monumentais. O brasileiro foi pioneiro na lógica do atleta famoso que topa tudo por dinheiro (Ronaldo fenômeno aprendeu bem). Não fala nada com nada e quando faz denúncia grave de corrupção é capaz de abraçar o denunciado e anunciar paz (e um belo contrato de publicidade) logo depois. Pelé jamais recusa o papel de laranja num grande evento e isso ficou muito claro pra todo mundo. Receita perfeita pro Edson destruir o mito Pelé. Vai conseguir. Na copa de 94 assistia os jogos do Brasil com meus colegas de trabalho, quando o Pelé começava a comentar (na Globo) algum lance todo mundo gritava "deu Pelé, chega, quieto Pelé". Adeus rei. De lá pra cá só piorou. Maradona ao menos é divertido, não faz o tipo vendido, faz mais o tipo trágico, mas acaba cansando também com as besteiras fatalistas que costuma soltar. O cargo de técnico da Argentina numa copa deve ter arranhado o mito. Um pouquinho ao menos.

Até aqui Messi só joga. E joga muito. Isto pode mudar, mas ele parece tão maluco por futebol que acho pouco provável que mude, apenas uma contusão grave pode desviar o cara do caminho óbvio. Ahhh, mas faltam três copas do mundo, berram os comentaristas brasileiros - os da Globo, normalmente. Pelé ganhou duas (62 foi de Garrincha, Pelé saiu no começo da copa), Maradona uma e, ainda assim, pra muita gente Maradona é melhor que Pelé. Se Messi continuar arrebentando no Barcelona e ganhando mais Liga dos Campeões, os jornalistas brasileiros vão ficar falando sozinhos - o que, aliás, deveria ser regra. Mesmo assim acho que em 2014 o Messi resolve isso elimando o Brasil na semifinal e ganhando da Espanha na final no Maracanã. E ponto final na discussão (até parece).

PS - Tem um video no you tube dum jornalista brasileiro no Redação Sportv todo exaltado quando um jornalista inglês coloca sua opinião sobre o Messi já ser melhor que o Pelé: "faltam 3 copas, precisa de copa do mundo...." berrava o brasileiro. Há bem pouco tempo os brasileiros davam risada dos argentinos que defendiam o Maradona sobre o Pelé, agora, num futuro próximo, nossos jornalistas esportivos é que vão divertir o mundo berrando Pelé, Pelé....com todo mundo já dando a coroa ao Messi, ainda mais depois da vitória da Argentina na final do Maracanã com dois gols do baixinho.

sábado, 19 de janeiro de 2013

Itapemices

Parabéns às mentes criativas que reservaram aos intervalos da rádio Itapema de Florianópolis comentários interessantissimos sobre "moda, tendências, gastronomia e qualidade de vida" - ou outros termos tão sem sentido quanto. Assim, se você quer deixar a rádio ligada na Itapema, ou você fica com o controle remoto de prontidão pra sacar ao primeiro aviso da vinheta dos colunistas descolados que invadem o intervalo, ou você vai ter que ouvir muita, mas muita porcaria em forma de pitadas de sabedoria. 

Acho realmente curioso olhar pro espelho elitista brasileiro e ver a autoimagem cool, inteligente e antenada que parecem enxergar quando olham ali. Digo isso pois a rádio em questão não toca as músicas das rádios FM normais, mas os chamados clássicos do rock e MPB e (muitas) versões da bossa nova. Não é muito do meu gosto, mas funciona pra acalmar o "som ao redor" enquanto tento ler e não estou com paciência pra ficar trocando meus cds do Led Zeppelin do aparelho. Voltando à auto imagem da elite, pra justificar tal miragem usam um arsenal do inferno de clichés e lugares comuns pra encobrir a completa ausência de um raciocínio - qualquer um - verdadeiro. Uma espécie de Clube da Luta invertido onde ao invés de socos e pontapés os maurícios e patrícias aplicam clichés de cultura (do que acham que é) e responsabilidade social um no outro pra elevar a famigerada autoestima de classe. 

Assim num originalíssimo quadro intitulado pequenos gestos, grandes atitudes, um cara fala sobre as sacolinhas de plástico, torneiras fechadas, apagar as luzes e outras coisas que acham que vai salvar o mundo. São tantas as besteiras que o cara ontem resolveu falar sobre estatísticas de energia da União Européia, destacando (e aprovando) uma mudança com o aumento na utilização de fontes renováveis (fetiche que só atrapalha quem luta de fato por isso) de energia pelos países da região. Como esse tipo de pensamento pronto não liga muito pra lógica da coisa, após anunciar uma alteração radical no padrão energético (segundo a nota) dos países da União Européia, o colunista aplica o bordão "pequenos gestos, grandes atitudes". Genial. Imagino um grande gesto como seria.

Mas a campeã mesmo é uma tal de Samira Campos, dona da significativa coluna chamada estilo. Um mero descuido na localização do controle remoto vai te causar danos cerebrais consideravelmente graves se você for obrigado a ouvir dois ou mais comentários da madame. Na primeira vez que me pegou desprevenido, respirei fundo, meio tenso, acreditando na minha força de caráter, mas falhei miseravelmente. Tremi e meu pobre aparelho de som quase pagou com a vida pela minha fraqueza. Nessas horas meu pãodurismo sempre me impede de atos inconsequentes. Após um lenga lenga sem fim sobre alguma coisa amarela que as mulheres executivas descoladas estão usando novamente - tipo de lenga lenga que causa danos também ao estômago - a madame arrematou em triunfo "o meu, por exemplo, comprei na Europa" (ou algo do tipo). Que bom, fico feliz que alguém vá a Europa pra comprar breguices amarelas. Por que eu tenho que saber disso numa rádio é dessas coisas da natureza humana que me comovem. Na outra vez que titubeei e deixei a bola passar, a madame começou a coluna com "Deu no New York Times". Juro. Já com o espírito preparado e o caráter endurecido pela provação da coluna anterior, consegui abstrair as bobagens seguintes, quase até o fim. Pra arrematar, no que parece o estilo virtuosi da madame, ela diz "não sei se precisa (cita o assunto da bobagem da nota), mas sei que o que importa é ser original." Ela só fala clichés, começa uma nota com "deu no New York Times" pra seguir com um "case de sucesso" e acha perfeitamente normal concluir com uma exaltação da pensamento original. Fantástico. E acham que analfabeto funcional é o outro. Tem também as inevitáveis colunas onde a madame ensina as serviçais (trabalhadoras de lojas chiques) como não deixá-la irritada na sua árdua rotina de fazer compras.

Tem também uma especialista em design que fala o que especialistas em design devem dizer por aí e um cara que fala das maravilhas duma pequena vila no Cazaquistão ou outro lugar remoto e pergunta "bora lá"? Sim, vamos, to fazendo a mala. Outro, o único com sotaque mané, fala sobre comida - e é a única dessas colunas com algum interesse.Tem uma moça que fala banalidades do Hawaii ou Manhattan pra "ilha de cá" e, claro, não poderiam faltar as dicas de consumo pros nobres ouvintes. A Jaguar fez um carro exclusivo pra você. Preço R$ (ou U$, tanto faz) 1,5 milhão. Bolsa descolada, R$ 17 mil. Sapatos sofisticados: 5 mil. Paletó de hermenildo ou hermenegildo seiláoque: 25 mil. Público AAA+plus-over é isto.

Realmente se isso é pensamento antenado pra quem "aprecia cultura", fico pensando qual vai ser o conceito de cultura num futuro próximo. Bem próximo, tipo hoje à noite. Sei que tenho que procurar O Som ao Redor   - que todo mundo tá chamando de o melhor filme brasileiro em muito tempo - num cinema de arte, desses que as pessoas cool e antenadas de Floripa não sabem da existência. Vai saber o que os ouvintes da Samira Campos e seu programa estilo vão entender por arte em alguns anos. Argo, do Ben Affleck, sucesso de bilheteria e candidato a tudo que é prêmio nos EUA, aqui passou escondido. Leram - os programadores de cinema - Irã escrito na sinopse e pensaram no Kiorostami e concluído que era um filme de arte. Olho na programação do cinema de shopping aqui perto: O Hobbit, De pernas pro ar 2 (isso quer dizer que tem o 1), João e Maria - caçadores de bruxas (pelamordedeus), Jack Reacher, Uma família em apuros, Sammy 2 e Detona Ralph. E pré-estréia do Django do Tarantino pra aliviar a barra. Pelo andar da coisa logo os novos do Tarantino vão passar somente nos circuitos alternativos aqui em Floripa. Mas o Jaguar já deve ter ido pra garagem. E não mordeu ninguém.


domingo, 13 de janeiro de 2013

Um livro


Nancy era invariavelmente a última pessoa da família a se recolher; (...) Naquela noite, depois de secar e escovar os cabelos, prendendo-os com um lenço vaporoso, deixou separadas as roupas que pretendia usar na manhã seguinte para ir à igreja: meias de náilon, sapatos pretos sem salto, um vestido vermelho de veludo - o mais bonito que tinha, que ela mesmo fizera. Seria o vestido com que a enterrariam.

O trecho acima já vale o livro. Nos parágrafos anteriores, com a descrição de Truman Capote da rotina da família Clutter - e de Nancy Clutter, a filha adolescente, em particular - corre-se o risco de esquecer o que vai acontecer no dia seguinte. A última frase do parágrafo surge pra lembrar e chocar. E consegue. Os detalhes todos do livro A sangue frio são obtidos mezzo descrição (com base nas entrevistas com os habitantes de Holcomb e com os dois jovens que mataram os Clutter) e mezzo licença poética de Capote pra reconstruir os pensamentos e ações dos Clutter no último dia. Não é exatamente jornalismo e não é registro acadêmico - o que explica a antipatia do texto nestes meios ao chamado jornalismo literário ou romance de ficção (como chamava Capote) - mas é, pra mim, um dos grandes trabalhos na tentativa de compreender a maldade (o outro é Eichmann em Jerusalém, da Hannah Arendt). Diferente de Arendt, que nunca sentiu nenhuma simpatia por Eichmann, apenas percebeu que não se tratava de nenhum demônio, Capote se envolveu com os dois jovens que assassinaram os Clutter ao longo das sessões de entrevistas, principalmente com Perry Smith. Tornou-se um confidente, talvez mais do que isso, a ponto de, anos depois, ser o convidado que os dois condenados chamaram pra assistir a execução. Richard Hickock e Perry Smith assassinaram brutalmente (parece que Smith foi quem matou) numa noite em Holcomb o casal de fazendeiros Herbert e Bonnie Clutter e seus filhos adolescentes, Nancy e Kenyon (16 e 15 anos respectivamente). Smith e Hickock passavam casualmente por Holcomb, decidiram assaltar uma casa, escolheram a dos Clutter. Sem qualquer resistência, sem outro motivo, os quatro foram mortos. Confesso que não consegui sentir nenhum tipo de compaixão por Smith ou Hickock e esse é um dos méritos do relato de Capote. Pobreza, maus tratos na infância, perturbações psicológicas, o quadro dos assassinos não é muito diferente de milhões de jovens, mas a cena na fazendo dos Clutter sim. Capote trata dos Clutter, de Smith e de Hickock, mas trata também do que fazer com a maldade extrema e quem é capaz dessa maldade. Não é pouca coisa.

O desejo de morte que alimenta a punição penal é compreensível, mas no limite da pessoa, do indivíduo, não do Estado. E quem escreve aqui não é exatamente alguém que valoriza todas as formas de vida ou que acha que só deus pode tirar ou coisa que o valha. Tenho meus momentos - quase diários - de querer estrangular um ou dois indivíduos, mas, como disse, é problema meu, não do Estado - e acho deprimente essas campanhas de familiares com a camiseta com foto da vítima assassinada pedindo pena de morte no Brasil ou redução da idade pra punição. Deprimente e mórbido. Não é função do Estado e não funciona quando é. Nunca vai funcionar. Apenas isso.

Há um erro terrível de julgamento que acha que quanto pior o tratamento dado aos criminosos melhor "aqui fora". Não é. Um indicador simples de estado civilizatório (termo ruim, eu sei) é o tratamento dado aos "problemáticos". E quanto pior o tratamento lá "dentro", maior a merda aqui "fora". Isso posto, por princípio, não mataria os assassinos dos Clutter, mas lendo A Sangue Frio não senti nenhuma pena dos dois. Soltos, argumentariam os defensores da pena de morte, Smith e Hickock voltariam a matar. É bem provável, mas presos não pareciam incomodar e esse é um ponto chave: a pena de morte não contribui em nada pra diminuir a população carcerária. Na prática o cara só pensa na possibilidade de ser executado depois de preso ou quando está sendo perseguido pela polícia, não antes de cometer um crime. Não sei bem o que faria, mas a prisão parecia um bom lugar pro Perry Smith e Richard Hickock. O problema, lá como aqui, é que tem muita gente na prisão que jamais devia ter ido pra lá - e esse número alto de presos é justamente um dos argumentos dos que defendem a execução dos "incorrigíveis", num circuito fechado que já não responde mais à lógica, mas ao desejo de morte. Dos dois lados.

Enquanto Capote escrevia sobre a morte dos Clutter pra revista New Yorker, Hannah Arendt relatava o julgamento de Eichmann pra mesma revista. Mais de cinquenta anos depois da morte dos Clutter e quase o mesmo tanto do enforcamento dos assassinos,  nada indica qualquer redução no ímpeto assassino lá nos EUA - e poderia citar aqui os já rotineiros massacres cometidos por jovens armados nas escolas americanas. Em Jerusalém, quase no mesmo período do julgamento de Smith e Hickock, o oficial da SS nazista Adolf Eichmann também foi condenado e enforcado por participar ativamente da Solução Final do problema judeu. Hoje o Estado judeu cria e mantém campos de concentração na Palestina ocupada.

Uma observação: não bastasse a visão original de um crime terrível contada no livro A Sangue Frio, pra quem já morou numa cidadezinha minúscula - a redundância é porque é bem pequena mesmo ("poucos habitantes do próprio estado do Kansas já tinham ouvido falar") - do interior, mesmo do Brasil, vai conseguir imaginar o que foi a chegada de uma figura como Truman Capote na cidade pra passar uns tempos ali (e logo depois do massacre de uma das famílias mais conhecidas do lugar), justamente pra fuçar na grande tragédia local. Pelas descrições e imagens de Capote, era um sujeito afetadíssimo, baixinho e frequentador assíduo do Café Society de Nova York. A colaboração dos moradores (e dos assassinos) deve ter sido um pequeno milagre de Capote - ou, bem provável, de sua amiga, também escritora, Harper Lee (do livro clássico To Kill a Mockingbird -  que virou um filme de tribunal com o Gregory Peck, não lembro o título em português, acho que é o sol é para todos ou algo maluco assim) que acompanhou Capote a Holcomb e deve ter ajudado muito no contato com os locais - o Ivan Lessa, na introdução do livro pela Cia das Letras diz que Capote deve ter hipnotizados os moradores, pode ser.