sábado, 19 de janeiro de 2013

Itapemices

Parabéns às mentes criativas que reservaram aos intervalos da rádio Itapema de Florianópolis comentários interessantissimos sobre "moda, tendências, gastronomia e qualidade de vida" - ou outros termos tão sem sentido quanto. Assim, se você quer deixar a rádio ligada na Itapema, ou você fica com o controle remoto de prontidão pra sacar ao primeiro aviso da vinheta dos colunistas descolados que invadem o intervalo, ou você vai ter que ouvir muita, mas muita porcaria em forma de pitadas de sabedoria. 

Acho realmente curioso olhar pro espelho elitista brasileiro e ver a autoimagem cool, inteligente e antenada que parecem enxergar quando olham ali. Digo isso pois a rádio em questão não toca as músicas das rádios FM normais, mas os chamados clássicos do rock e MPB e (muitas) versões da bossa nova. Não é muito do meu gosto, mas funciona pra acalmar o "som ao redor" enquanto tento ler e não estou com paciência pra ficar trocando meus cds do Led Zeppelin do aparelho. Voltando à auto imagem da elite, pra justificar tal miragem usam um arsenal do inferno de clichés e lugares comuns pra encobrir a completa ausência de um raciocínio - qualquer um - verdadeiro. Uma espécie de Clube da Luta invertido onde ao invés de socos e pontapés os maurícios e patrícias aplicam clichés de cultura (do que acham que é) e responsabilidade social um no outro pra elevar a famigerada autoestima de classe. 

Assim num originalíssimo quadro intitulado pequenos gestos, grandes atitudes, um cara fala sobre as sacolinhas de plástico, torneiras fechadas, apagar as luzes e outras coisas que acham que vai salvar o mundo. São tantas as besteiras que o cara ontem resolveu falar sobre estatísticas de energia da União Européia, destacando (e aprovando) uma mudança com o aumento na utilização de fontes renováveis (fetiche que só atrapalha quem luta de fato por isso) de energia pelos países da região. Como esse tipo de pensamento pronto não liga muito pra lógica da coisa, após anunciar uma alteração radical no padrão energético (segundo a nota) dos países da União Européia, o colunista aplica o bordão "pequenos gestos, grandes atitudes". Genial. Imagino um grande gesto como seria.

Mas a campeã mesmo é uma tal de Samira Campos, dona da significativa coluna chamada estilo. Um mero descuido na localização do controle remoto vai te causar danos cerebrais consideravelmente graves se você for obrigado a ouvir dois ou mais comentários da madame. Na primeira vez que me pegou desprevenido, respirei fundo, meio tenso, acreditando na minha força de caráter, mas falhei miseravelmente. Tremi e meu pobre aparelho de som quase pagou com a vida pela minha fraqueza. Nessas horas meu pãodurismo sempre me impede de atos inconsequentes. Após um lenga lenga sem fim sobre alguma coisa amarela que as mulheres executivas descoladas estão usando novamente - tipo de lenga lenga que causa danos também ao estômago - a madame arrematou em triunfo "o meu, por exemplo, comprei na Europa" (ou algo do tipo). Que bom, fico feliz que alguém vá a Europa pra comprar breguices amarelas. Por que eu tenho que saber disso numa rádio é dessas coisas da natureza humana que me comovem. Na outra vez que titubeei e deixei a bola passar, a madame começou a coluna com "Deu no New York Times". Juro. Já com o espírito preparado e o caráter endurecido pela provação da coluna anterior, consegui abstrair as bobagens seguintes, quase até o fim. Pra arrematar, no que parece o estilo virtuosi da madame, ela diz "não sei se precisa (cita o assunto da bobagem da nota), mas sei que o que importa é ser original." Ela só fala clichés, começa uma nota com "deu no New York Times" pra seguir com um "case de sucesso" e acha perfeitamente normal concluir com uma exaltação da pensamento original. Fantástico. E acham que analfabeto funcional é o outro. Tem também as inevitáveis colunas onde a madame ensina as serviçais (trabalhadoras de lojas chiques) como não deixá-la irritada na sua árdua rotina de fazer compras.

Tem também uma especialista em design que fala o que especialistas em design devem dizer por aí e um cara que fala das maravilhas duma pequena vila no Cazaquistão ou outro lugar remoto e pergunta "bora lá"? Sim, vamos, to fazendo a mala. Outro, o único com sotaque mané, fala sobre comida - e é a única dessas colunas com algum interesse.Tem uma moça que fala banalidades do Hawaii ou Manhattan pra "ilha de cá" e, claro, não poderiam faltar as dicas de consumo pros nobres ouvintes. A Jaguar fez um carro exclusivo pra você. Preço R$ (ou U$, tanto faz) 1,5 milhão. Bolsa descolada, R$ 17 mil. Sapatos sofisticados: 5 mil. Paletó de hermenildo ou hermenegildo seiláoque: 25 mil. Público AAA+plus-over é isto.

Realmente se isso é pensamento antenado pra quem "aprecia cultura", fico pensando qual vai ser o conceito de cultura num futuro próximo. Bem próximo, tipo hoje à noite. Sei que tenho que procurar O Som ao Redor   - que todo mundo tá chamando de o melhor filme brasileiro em muito tempo - num cinema de arte, desses que as pessoas cool e antenadas de Floripa não sabem da existência. Vai saber o que os ouvintes da Samira Campos e seu programa estilo vão entender por arte em alguns anos. Argo, do Ben Affleck, sucesso de bilheteria e candidato a tudo que é prêmio nos EUA, aqui passou escondido. Leram - os programadores de cinema - Irã escrito na sinopse e pensaram no Kiorostami e concluído que era um filme de arte. Olho na programação do cinema de shopping aqui perto: O Hobbit, De pernas pro ar 2 (isso quer dizer que tem o 1), João e Maria - caçadores de bruxas (pelamordedeus), Jack Reacher, Uma família em apuros, Sammy 2 e Detona Ralph. E pré-estréia do Django do Tarantino pra aliviar a barra. Pelo andar da coisa logo os novos do Tarantino vão passar somente nos circuitos alternativos aqui em Floripa. Mas o Jaguar já deve ter ido pra garagem. E não mordeu ninguém.


domingo, 13 de janeiro de 2013

Um livro


Nancy era invariavelmente a última pessoa da família a se recolher; (...) Naquela noite, depois de secar e escovar os cabelos, prendendo-os com um lenço vaporoso, deixou separadas as roupas que pretendia usar na manhã seguinte para ir à igreja: meias de náilon, sapatos pretos sem salto, um vestido vermelho de veludo - o mais bonito que tinha, que ela mesmo fizera. Seria o vestido com que a enterrariam.

O trecho acima já vale o livro. Nos parágrafos anteriores, com a descrição de Truman Capote da rotina da família Clutter - e de Nancy Clutter, a filha adolescente, em particular - corre-se o risco de esquecer o que vai acontecer no dia seguinte. A última frase do parágrafo surge pra lembrar e chocar. E consegue. Os detalhes todos do livro A sangue frio são obtidos mezzo descrição (com base nas entrevistas com os habitantes de Holcomb e com os dois jovens que mataram os Clutter) e mezzo licença poética de Capote pra reconstruir os pensamentos e ações dos Clutter no último dia. Não é exatamente jornalismo e não é registro acadêmico - o que explica a antipatia do texto nestes meios ao chamado jornalismo literário ou romance de ficção (como chamava Capote) - mas é, pra mim, um dos grandes trabalhos na tentativa de compreender a maldade (o outro é Eichmann em Jerusalém, da Hannah Arendt). Diferente de Arendt, que nunca sentiu nenhuma simpatia por Eichmann, apenas percebeu que não se tratava de nenhum demônio, Capote se envolveu com os dois jovens que assassinaram os Clutter ao longo das sessões de entrevistas, principalmente com Perry Smith. Tornou-se um confidente, talvez mais do que isso, a ponto de, anos depois, ser o convidado que os dois condenados chamaram pra assistir a execução. Richard Hickock e Perry Smith assassinaram brutalmente (parece que Smith foi quem matou) numa noite em Holcomb o casal de fazendeiros Herbert e Bonnie Clutter e seus filhos adolescentes, Nancy e Kenyon (16 e 15 anos respectivamente). Smith e Hickock passavam casualmente por Holcomb, decidiram assaltar uma casa, escolheram a dos Clutter. Sem qualquer resistência, sem outro motivo, os quatro foram mortos. Confesso que não consegui sentir nenhum tipo de compaixão por Smith ou Hickock e esse é um dos méritos do relato de Capote. Pobreza, maus tratos na infância, perturbações psicológicas, o quadro dos assassinos não é muito diferente de milhões de jovens, mas a cena na fazendo dos Clutter sim. Capote trata dos Clutter, de Smith e de Hickock, mas trata também do que fazer com a maldade extrema e quem é capaz dessa maldade. Não é pouca coisa.

O desejo de morte que alimenta a punição penal é compreensível, mas no limite da pessoa, do indivíduo, não do Estado. E quem escreve aqui não é exatamente alguém que valoriza todas as formas de vida ou que acha que só deus pode tirar ou coisa que o valha. Tenho meus momentos - quase diários - de querer estrangular um ou dois indivíduos, mas, como disse, é problema meu, não do Estado - e acho deprimente essas campanhas de familiares com a camiseta com foto da vítima assassinada pedindo pena de morte no Brasil ou redução da idade pra punição. Deprimente e mórbido. Não é função do Estado e não funciona quando é. Nunca vai funcionar. Apenas isso.

Há um erro terrível de julgamento que acha que quanto pior o tratamento dado aos criminosos melhor "aqui fora". Não é. Um indicador simples de estado civilizatório (termo ruim, eu sei) é o tratamento dado aos "problemáticos". E quanto pior o tratamento lá "dentro", maior a merda aqui "fora". Isso posto, por princípio, não mataria os assassinos dos Clutter, mas lendo A Sangue Frio não senti nenhuma pena dos dois. Soltos, argumentariam os defensores da pena de morte, Smith e Hickock voltariam a matar. É bem provável, mas presos não pareciam incomodar e esse é um ponto chave: a pena de morte não contribui em nada pra diminuir a população carcerária. Na prática o cara só pensa na possibilidade de ser executado depois de preso ou quando está sendo perseguido pela polícia, não antes de cometer um crime. Não sei bem o que faria, mas a prisão parecia um bom lugar pro Perry Smith e Richard Hickock. O problema, lá como aqui, é que tem muita gente na prisão que jamais devia ter ido pra lá - e esse número alto de presos é justamente um dos argumentos dos que defendem a execução dos "incorrigíveis", num circuito fechado que já não responde mais à lógica, mas ao desejo de morte. Dos dois lados.

Enquanto Capote escrevia sobre a morte dos Clutter pra revista New Yorker, Hannah Arendt relatava o julgamento de Eichmann pra mesma revista. Mais de cinquenta anos depois da morte dos Clutter e quase o mesmo tanto do enforcamento dos assassinos,  nada indica qualquer redução no ímpeto assassino lá nos EUA - e poderia citar aqui os já rotineiros massacres cometidos por jovens armados nas escolas americanas. Em Jerusalém, quase no mesmo período do julgamento de Smith e Hickock, o oficial da SS nazista Adolf Eichmann também foi condenado e enforcado por participar ativamente da Solução Final do problema judeu. Hoje o Estado judeu cria e mantém campos de concentração na Palestina ocupada.

Uma observação: não bastasse a visão original de um crime terrível contada no livro A Sangue Frio, pra quem já morou numa cidadezinha minúscula - a redundância é porque é bem pequena mesmo ("poucos habitantes do próprio estado do Kansas já tinham ouvido falar") - do interior, mesmo do Brasil, vai conseguir imaginar o que foi a chegada de uma figura como Truman Capote na cidade pra passar uns tempos ali (e logo depois do massacre de uma das famílias mais conhecidas do lugar), justamente pra fuçar na grande tragédia local. Pelas descrições e imagens de Capote, era um sujeito afetadíssimo, baixinho e frequentador assíduo do Café Society de Nova York. A colaboração dos moradores (e dos assassinos) deve ter sido um pequeno milagre de Capote - ou, bem provável, de sua amiga, também escritora, Harper Lee (do livro clássico To Kill a Mockingbird -  que virou um filme de tribunal com o Gregory Peck, não lembro o título em português, acho que é o sol é para todos ou algo maluco assim) que acompanhou Capote a Holcomb e deve ter ajudado muito no contato com os locais - o Ivan Lessa, na introdução do livro pela Cia das Letras diz que Capote deve ter hipnotizados os moradores, pode ser.

quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

Confiar, trair e fatiar

Confiança. Você passa anos, décadas, uma vida, construindo uma relação. Entre tantos materiais utilizados, concretos ou abstratos, está lá, em destaque, a tal da confiança. Mas, como o Maracanã, essa é uma obra que, sabemos, nunca terá fim. Pode até parecer pronto, pode funcionar, mas então é reformado. E reformado. Como numa reforma eterna, confiar é um pacto que tenta preservar as estruturas de uma relação, enquanto o resto se modifica. As partes são alteradas, mas o todo que se molda, o resultado final, não importa o grau de planejamento, é sempre uma surpresa, pois a confiança nunca pode ser totalizante. Não existe e nunca existirá uma confiança total, mesmo que nossa irracionalidade insista nisso. Nunca, nunca mesmo, a confiança pode ser uma questão concluída. A confiança plena, pronta, acabada, inabalável, como uma Quimera, não pode existir no plano real, apenas lá, na mitologia.

E ainda assim, chega um momento em que as coisas parecem convergir, e entre o mito e o concreto nasce algo que consegue preencher as expectativas. Uma confiança, se não plena, ao menos plenamente satisfatória. Uma série de acordos mutuamente aceitos que tornam possível uma relação harmoniosa, de convivência prazerosa, até nos piores momentos das reformas, sempre cheias de piores momentos. E, então, na hora mais crítica possível, naquele instante onde tudo precisava acontecer como vinha acontecendo, com as responsabilidades, os papéis e funções perfeitamente delineados e, na aparência, aceitos, o horror acontece. Tão previsível, tão difícil de antecipar.

Sua cara empalidece, olhos examinam sem ver, o que vêem faz pouco sentido. Não naquele lugar, cheio de boas lembranças. Mas é verdade. O seu açougue, de tanta confiança, não cortou a carne em tirinhas como tinha prometido na embalagem. A panela já está com azeite e manteiga aquecidos, na temperatura ideal - esse santo graal da culinária que, quando atingida (e perdida) nunca mais vai se repetir. Os ingredientes todos do estrogonofe esperando sua vez, na delicada e imutável ordem do preparo do prato. A perfeição da cor e sabor do conhaque devidamente testados. E retestados. Cogumelos champignons, in natura, fatiados na espessura ideal, aguardando, juntamente com cebolas e alho, tão micropicados quanto possível, em raríssimo nível de precisão. Creme de leite fresco, mais o caldo elaborado com partes de carne, ossos e especiarias, lentamente cozido até encorpar, na consistência e sabor, além de um bom catchup - daquela marca que quase chegou à Casa Branca, nos Estados Unidos, todos nos respectivos recipientes, ansiosos, esperando o aviso mágico pra entrar em cena. A embalagem da carne é aberta. Sim, devia ter aberto antes. Mas com confiança é assim, você deixa de fazer os movimentos óbvios, checar, conferir detalhes importantes. Afinal, confia. E a carne não está cortada em tirinhas. Não adianta olhar novamente, enquanto na panela a manteiga avisa, pela cor e pelo odor, que já não vai mais dar suporte aos meus erros de julgamento. Outro olhar pra embalagem, patético na esperança inútil. Ainda são semi-tiras, com mais pedaços unidos do que separados - o que só aumenta a sensação de quebra de confiança. Não foi um engano apenas. Um esquecimento. Houve uma tentativa deliberada de falsear a verdade. Cortar apressadamente, sem cuidado, sem carinho, apenas pra cumprir tabela. E cobrar a mais por isso. A confiança, aquela construção lenta, agora, em segundos, escorre pro ralo da pia, junto com o sangue das tirinhas de carne, mais unidas do que separadas, como numa vermelha utopia socialista. Não há outra alternativa possível, é preciso pegar um instrumento de corte bem afiado, respirar fundo, nervos expostos. E fatiar a carne, finalizando o trabalho fraudado. O ritmo do preparo, a química dos ingredientes, tudo comprometido. A temperatura ideal da manteiga e do azeite está perdida. Pra sempre.

segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

Carteirada

Sim, é feio. Muito feio. Mas dei uma carteirada - e olha que não sou ninguém, não tenho salário nem carteira (além da de motorista, vencida, aliás). E, no entanto, apliquei a maldita carteirada mesmo assim. Não, não falei o famigerado "sabe com quem está falando", até por ser completamente inócuo no meu caso. Não posso prender, desprender ou mandar prender ninguém. Diga-se a meu favor que fiz de tudo, tudo mesmo, pra evitar a coisa toda. Fiquei ali, quietinho, na mesa de boteco, bebendo minha cerveja e falando apenas com os conhecidos mais antigos na cidade onde cresci e já não moro faz tempo. Eis que chega o amigo do amigo ou namorado da amiga, algo assim, e, na conversa geral, alguém deixa escapar que eu fiz doutorado recentemente. Pronto, foi dada a licença pro cidadão falar como se fosse meu velho amigo - "Fala aí, sobre o que você fez doutorado? Conta aí". Ao confirmar que o doutorado era em sociologia e não numa área de verdade, uma ciência importante, ou ao menos útil, ouve-se o inevitável "mas na prática contribui pra quê isso?", ainda que eu não tenha mencionado quase nada sobre qualquer coisa. Até aí, nada incomum, os clichés de sempre que entram num ouvido e saem pelo outro sem causar maiores danos no caminho. Continuando nos lugares comuns, chegamos ao "quanto custa esse troço? pagou quanto?". Tentanto evitar esse tema até ali, pelo inevitável desdobramento da conversa, sou obrigado a mencionar que fui bolsista - e numa universidade pública. Aí fodeu. Mais de quinze minutos de supostas piadas sobre mamar nas tetas e coisas assim, "ganhar pra coçar o saco? maravilha hein?". Um  minuto. Dois minutos. Já não falava nada há algum tempo enquanto olhava a figura falando, falando e falando sobre a mamata que eu tinha arranjado -  "quem te botou nessa?", é tudo indicação, dizia o especialista em tudo. Não achei que valia a pena mencionar que nunca tinha falado com ninguém na cidade ou na universidade antes da prova e entrevista de seleção, ou que li pra caralho pra fazer a prova. Sete minutos. Oito minutos. O tempo padrão desse tipo de conversa chata já tinha extrapolado em vários minutos. O boi sentado à mesa falava agora - ou melhor, discursava - sobre seu dinheiro pago em impostos indo pro ralo com esse negócio de bolsas de estudo, bolsa família e essas coisas todas. Privatizar era a palavra mágica, a resposta que ele mesmo dava pra qualquer complicação - também  numa classificação própria do que é complicação ou não. Dez minutos. Achei que já tinha esgotado todas as possibilidades de repetir chavões sobre meu tempo de estudo e ia me deixar em paz. Doze minutos. Quem navega por lugares comuns nunca fica sem assunto - e nunca esgota um. O cara se tocou que tinha praia na cidade onde fiz doutorado. Quatorze minutos. Supostas piadas sobre ganhar pra surfar, pra pegar onda. Minha pele insensatamente branca, em dezembro, não produz nenhum tipo de alerta ao bovino sobre o equívoco praiano, e continuam as supostas piadas sobre a vida boa na areia enquanto ele tinha que pastar - ou trabalhar. Acho que ele falou trabalhar. Quinze minutos. Paciência acaba. Não devia, eu sei. Mas também, nunca fui do tipo que quer fazer amigos e meus velhos conhecidos na mesa estavam até estranhando meu neopacifismo. Dezesseis minutos. Foda-se. Cara, tem uma caderneta aqui no meu bolso, me empresta uma caneta moça. Valeu, toma aqui cidadão, caderneta e caneta, a noite tá começando, você tem todo tempo pra escrever um parágrafo, um paragrafozinho só. Mas um paragrafozinho que preste. Pode ser sobre o que você escolher, sobre economia, política, física quântica, mulher bonita, teu time de futebol, a porra do assunto que te interessar, mas até sairmos dessa mesa, daqui algumas horas, você vai ler pra todo mundo em voz alta. Se a  maioria aqui achar que presta mesmo, que tá bem escrito, que tem alguma coisa interessante, eu pago tua parte na conta. Esse vai ser teu dinheiro fácil, tua mamata. Pena que não dá pra arrumar uma praia aqui pra te ajudar. Topa?

Não foi bem carteirada, foi mais uma cadernetada, mas produziu o efeito desejado. Silêncio.

quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

Amareladas parte 2


Divertida a fala do Gilberto Carvalho à militância petista. Quer dizer que o PT amarela, amarela e amarela de novo, em todas as instâncias e, quando o bicho pega, como sempre vai pegar, o partido chama às ruas seus militantes pra enfrentar o tal "pig". Beleza. Que tal lembrar que já estão há 10 anos no poder, sem fazer nada pra reformar a concentração antidemocrática na propriedade dos meios de comunicação - como alertam militância e não militância há décadas.

Aliás, fez sim, continuou a transferir dinheiro público pra sustentar essa mesma imprensa antidemocrática. Parabéns. Mexam as bundas das poltronas governista primeiro, retomem os programas de acesso à cultura lá dos primeiros tempos do PT, hoje enterrados. Comecem aí, no topo do partido, a enfrentar a mídia conservadora, depois a gente conversa sobre apoio. 

PS: Na Folha "Relator da CPI do Cachoeira diz ter sido abandonado pelo PT. Texto do deputado petista Odair Cunha perdeu por 18 a 16 na sessão em que dois senadores de seu partido faltaram"

segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

Diálogos pra História

Tudo bem, quem quer um roteiro bem construído, diálogos precisos e afinados, vai assistir Breaking Bad, jamais vai ver 24 horas. Mas, contudo, porém, pelas netflixs da vida, acabei repassando recentemente a vida do heróico Jack Bauer em revista. Como esperado, dei de cara com alguns dos diálogos mais absurdos que já vi - e olha que cresci nos anos 80. 

De longe, o que ganhou o troféu, aliás, troféu nada, hour concour total,  foi a conversa de Jack com sua filha Kim. A loirinha tem a duvidosa honra de batizar um dos personagens mais imbecis da história da TV desde que o primeiro transistor foi posto pra funcionar, e aqui ela exercita sua melhor forma, mostrando todo o potencial que a consagraria.


Kim recebe uma visita de seu pai, Jack. Ela não quer falar com ele, ama ele, coisa e tal, mas traumatizada com os eventos da primeira temporada a moça diz que precisa de um tempo e essas coisas tolas de roteiro tolo. Eis que Jack recebe uma informação bombástica, literalmente (e do tipo nuclear), e sai correndo pra ligar pra Kim e alertá-la. 

A loira atende o telefonema de seu pai (que trabalhava até pouco tempo na divisão de contra-terrorismo do governo dos EUA) com aquela cara de patricinha contrariada. Jack fala: querida, estou aqui na (sigla da divisão de contra-terrorismo) e acabei de saber de uma coisa importante, temos que sair de Los Angeles neste minuto. [diálogos de memória, mas o espírito foi esse] Kim: pai, já disse que não quero falar com você agora, quando estiver pronta te procuro. Jack (voz desesperada): Tá bom, não precisa  falar comigo, mas você precisa sair de Los Angeles agora, faça isso (barulho de telefone desligado na cara). Kim de biquinho, cara de patricinha deprê. SENSACIONAL. Humor de primeira. Teu pai é um agente fodão no combate ao terrorismo, te liga dizendo que tá lá na sede da divisão de combate ao terrorismo, que tem uma informação importante e é pra você cair fora da cidade o quanto antes e...você desliga na cara dele e fica biquinho depré, e não atende mais as ligações todas que ele faz. GÊNIO.


Na minha lista das figuras que merecem deitar na mesa coberta de plástico do Dexter e receber o tratamento de pele que moço aplica, essa loirinha tá disparado no primeiro lugar.


PS - Na primeira temporada a loira já tinha feito de tudo pra conquistar a audiência com sua inteligência apurada. Ao escapar de um grupo de terroristas (quem assiste as temporadas de 24 horas fica com a impressão de que tem mais terroristas que habitantes lá nos EUA) a moça vai procurar refúgio com....o moleque bandido que tinha acabado de sequestrá-la pros mesmos terroristas. Sim, ela tava meio interessada no cara e ele disse que tava arrependido, mas claro que ela se fode de novo. Algum roteirista iluminado passou as primeiras temporadas inteiras do seriado achando que colocar a loira em situações de perigo - mesmo sem sentido nenhum - elevava a tensão sobre o seu pai protagonista, até que uma hora devem ter falado pro iluminado roteirista que, naquela altura do campeonato, não só a audiência como o próprio Jack Bauer estavam querendo que a Kim explodisse - em câmera lenta e em close, tamanha a capacidade da patricinha chata fazer merda. E tiraram a moça da série. Infelizmente sem explosão. Ou o Dexter.

domingo, 2 de dezembro de 2012

Como funciona parte 3: autoajuda

Como nas igrejas,  o típico adepto da autoajuda (o que paga, não o que forra o bolso de grana) tem como pressuposto necessário a falta absoluta de confiança na sua atividade cerebral. Bom, na verdade quem forra o bolso também não foge muito desse diagnóstico, mas como não pega bem chamar o cara que pode pagar suas contas de imbecil, os gurus de autoajuda usam em abundância o eufemismo baixa autoestima pra referir-se as suas vítimas ao seu público alvo. Então, pra pessoa tapada com baixa autoestima, faz-se necessário um ser iluminado pra lhe mostrar o caminho da luz. Pra uns (muitos) esse iluminado é jesus, o nazareno. Pra outros, além de jesus, o nazareno (pois o adepto da autoajuda é, logicamente, adepto de alguma religião - forma milenar de autoajuda), o ser iluminado pode ser também o Gabriel Chalita, o Shinyashiki, o Augusto Cury, o já meio fora de moda Lair Ribeiro (que usa o também eufemístico título neurolinguista pra não assinar charlatão nos livros), quem escreveu O Segredo ou O Monge e o Executivo e qualquer das centenas de charlatões do momento.

Pessoas com um ou outro neurônio (ativos) tendem a desprezar a literatura de autoajuda. Eu, com minha erudição beirando a zero (numa escala de zero a cem), talvez, exatamente por isso, não tenho nenhuma má vontade com as obras deste gênero. Tenho é muita vontade, de vomitar, a cada frase ou capa de livro duma dessas porcarias que vejo aí, nas livrarias e catálogos que recebo. Mas há um problema evidente nessa postura. Ignorar ou vomitar não anula a recepção em massa destas obras por aí. E não ajuda a entender também.

 Foto: Revista Trip

Lá dentro dos muros do convento, um lugar também conhecido como universidade, sei que tem algumas teses e dissertações que dão conta, ou tentam, do fenômeno da autoajuda, mostrando que, além de enriquecer alguns charlatões, as obras servem de instrumento necessário ao controle da gerência capitalista. Grosso modo, o Fredric Jameson identificou no pós-modernismo e suas "desconstruções" das grandes narrativas, suas pós-ideologias, pós-industriais, sociedade do conhecimento...uma perfeita cobertura cultural ao momento econômico que ele chama capitalismo tardio - do Mandel, dos frankfurtianos. Quer dizer, na virada dos 60 pros 70, e seguindo pros 80, era econômica e politicamente, necessário ao capitalismo obstruir as políticas esquerdistas, ligadas ao período industrial e ao marxismo, como as lutas sindicais. Nada melhor que uma cultura "antenada" que pregue exatamente o fim dessas modernidades, o fim das classes, o pós-tudo isso. Claro que isso é só uma aspecto, e o Jameson mesmo mostra que as transformações indentificadas com o pós-moderno aconteceram - e foram aceitas amplamente - e não adianta ficar dizendo que não gosta, fazendo biquinho. Com a autoajuda é algo parecido. Não, não estou dizendo que o Dale Carnegie ou quem escreveu O Segredo são idênticos ao que representam o Barthes ou o Lyotard, mas no ambiente completamente avesso à cultura mais profunda, a partir dos 90, era evidente que a lógica do neoliberalismo incentivaria uma visão cultural desprovida de qualquer espírito crítico ou postura coletiva, daí AUTO AJUDA.

Não é um complô capitalista, mas uma necessidade da economia sem freios do chamado neoliberalismo, que se casa com os interesses de uma pseudocultura encarregada de: 1) promover essa economia na lógica dos patrões, daí o discurso empreendedor. 2) desqualificar os seus críticos, os "esquerdistas", "perdedores". A lógica é simples, quem faz isso ganha espaço e dinheiro, vai dar entrevista na GloboNews...Quem não faz, fica restrito aos círculos acadêmicos e outros espaços com visibilidade muito menor - até mesmo pelo conteúdo da crítica, pois poucas pessoas sacariam um livro do Jameson chamado Pós-modernismo: a lógica cultural do capitalismo tardio pra ler enquanto espera o voo em Congonhas. Melhor pegar O Monge e o Executivo. Daí uma pseudocultura hegemônica, onipresente nas estantes das livrarias, citada e recitada o tempo todo como exemplo de sabedoria. Não é por acaso que a chamada ciência do capital, a Administração, tenha se tornado praticamente sinônimo de autoajuda. A consequência do pós-modernismo não foi um aprofundamento dos Lyotard, Mcluhan, Barthes, Baudrillard, Derrida, Deleuze e outros pensadores igualmente interessantes. Foi a proliferação dos Chalitas e Shinyashikis.

Por que desconfiar: Enquanto quem tem um neurônio ativo torce o nariz, esse povo da autoajuda vai construindo uma cultura da adaptação que se encarrega de satisfazer qualquer vontade dos patrões. Não se trata apenas, como alguns consideram, um problema do tonto que compra essas coisas, onde o guru lança lá a baboseira, dá suas palestras caríssimas e paga por isso quem quer. Como cultura, mesmo pseudo, e cada vez mais hegemônica e menos sub, a autoajuda molda,  ideologicamente, uma visão de mundo. E esse mundo planificado é, via de regra, avesso ao humanismo, ao aprofundamento do conhecimento, ao pensamento crítico...e por aí vai. Sei que pensamento crítico, conhecimento aprofundado e essas coisas soam abstratas, mas vai tentar dar um aula prum típico ser criado nessa cultura pra ver a coisa materializada. Pede pra criatura ler um texto razoavelmente profundo de mais de 3 páginas e vê o que acontece.  Quem acha que essa é apenas uma subárea da cultura, restrita aos nichos, vai dar uma olhada no cinema de shopping aí perto. Vê o que tá passando, o que faz sucesso.

Consequências: se você for professor/aluno de uma escola pública, dessas clássicas, caindo aos pedaços, superlotada, sem mesas e cadeiras pra tanto aluno, banheiros inutilizáveis, alunos convivendo com o crime organizado...enfim, tudo na merda ou quase isto, ao invés de se revoltar, se unir aos moradores do local e pressionar políticos e governos pra mudar, você vai ter que lidar com coisas assim: o importante é o amor, só o amor e o afeto podem mudar as condições adversas....O amor é capaz de quebrar paradigmas, barreiras, ranços. É o amor que nos envolve, que nos move. O amor do professor pode salvar seus alunos...Assim pensa um dos "grandes pensadores da educação no Brasil", no caso o Gabriel Chalita, que além de grande pensador da educação é político com algum poder, deputado federal com grande número de votos, candidato derrotado a prefeito de São Paulo (mas com boa votação pra cacifar futuras ambições), ex secretario estadual da educação em São Paulo no PSDB de Alckmin e com prestígio agora junto ao PT pra influenciar na área - e autor prolífico, com mais de 30 livros publicados antes dos 40 anos, incluindo clássicos como Educar em Oração ou Seis Lições de Solidariedade com Lu Alckmin (sim, puxando o saco na cara dura da mulher de seu então chefe, governador do estado).

Este é apenas um exemplo de como esta cultura de puxa saco de patrão, que desvaloriza qualquer conteúdo sério, impregnou de tal forma nossas vidas que, mesmo quem jamais se aproximou de um livro desses vai ter que aguentar um de seus gurus influenciando diretamente em políticas da educação. Mesmo um alienado como eu, que tentou acompanhar a cobertura do UOL das olimpíadas de Londres, notou uma foto estranha na lista normal de colunistas do portal, como o Juca Kfoury. Numa daquelas típicas fotos de charlatões - sorrizão forçado (simulando descontração em excesso) e expressão de que quer te vender um carro usado que funciona que é uma beleza, o guru Roberto Shinyashiki aparecia diariamente com suas pitadas de sabedoria pra julgar o comportamento dos atletas brasileiros, quem tinha espírito vencedor ou não. Realmente, é preciso um elevado brilhantismo intelectual pra dizer, depois da derrota, que a saltadora com vara tem problemas pra alcançar o sucesso. Imagino, num raciocínio análogo, que os medalhistas de ouro tenham, como característica, a facilidade pra alcançar o sucesso. Tautologia tosca, mas que deve pagar bem - pro Shinyashiki. E eu, que já me achava meio tonto por ainda prestar atenção nesse tal de esporte, vejo que o principal portal de notícias do Brasil vai mais além, considerando quem acompanha esporte ali um imbecil por inteiro.

Um exemplo mais sério e bastante comum: quem trabalha numa grande empresa já deve ter passado por essa, uma situação foda, salários baixos, ameaça de demissão em massa, fechamento de unidades, mudança da tua unidade pruma cidade na puta que pariu e....aparece um guru de autajuda contratado a peso de ouro pela empresa (que dizia pro sindicato que tava quase falida) pra dar uma palestra motivacional e "ajudar a enfrentar os desafios, as mudanças de paradigma". Você, claro, é obrigado a ir. Senta lá, na hora marcada, e começa o show com o cara botando uma musiquinha de pássaros pra "tirar as nuvens que nublam o ambiente". Como é sempre possível piorar, logo o guru começa com aquelas dinâmicas retardadas todas, que fazem de tudo, menos tratar da merda da situação em que tá teu trabalho naquela maldita empresa.

A aceitação ampla destas baboseiras está muito longe de restringir-se ao espaço pessoal do cara que vai na livraria e compra esse lixo. É a afirmação de uma cultura incapaz de ser original, de pensar, refletir, olhar pra si e criticar o que vê. Detesto o hábito de comparar tudo que se julga errado com algo tirado do nazismo - uma prática habitual dos péssimos comentários da internet. Mas sempre que vejo uma figura dessas da autoajuda dando "lições" de sucesso aos mortais, lembro da Hannah Arendt acompanhando o julgamento do Adolf Eichmann. O antigo oficial da SS responsável pela logística dos campos de concentração nazistas, observou Arendt, era incapaz de um pensamento original. Quando, com muito custo, conseguia falar algo que saísse do lugar comum, Eichmann, contente com si mesmo, repetia isso até virar mais um dos seus habituais clichés.

Não estou dizendo que quem lê o Shinyashiki, o Chalita ou O Segredo vai sair por aí querendo organizar um campo de concentração. Mas também não vejo esse adepto da lavagem cerebral autoajuda como alguém capaz de se opor a isso - ou se opor às ditaduras, tortura, politicas de extermínio... Taí Gaza, um campo de concentração controlado pelo povo que sobreviveu aos campos de concentração, pra mostrar que hoje em dia podemos aceitar qualquer coisa, desde que tenha um cliché explicativo pra confortar a consciência e adormecer ainda mais nosso já atrofiado cérebro.

Assim, depois que alguém na Palestina dá uma estilingada num israelense, achamos perfeitamente normal o bombardeio de áreas civis pelos mais modernos e pesados armamentos de guerra israelenses - adquiridos juntos ao "líder do mundo livre", como se auto intitula o presidente dos EUA - como, por exemplo, caças de guerra F-16 e helicópteros Apache. Também não tem nada de mais se Israel jogar nas áreas civis, cheias de crianças, bombas de fósforo branco (proibidas pelas convenções da ONU) que queimam profundamente a pele de quem entra em contato com a fumaça criada pela substância . Não, nenhum guru da autoajuda vai falar disso, o mundo deles é, na aparência, outro. Mas é esse outro mundo que possibilita e incentiva o massacre de civis no mundo de verdade, o de Gaza.