quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

Amareladas parte 2


Divertida a fala do Gilberto Carvalho à militância petista. Quer dizer que o PT amarela, amarela e amarela de novo, em todas as instâncias e, quando o bicho pega, como sempre vai pegar, o partido chama às ruas seus militantes pra enfrentar o tal "pig". Beleza. Que tal lembrar que já estão há 10 anos no poder, sem fazer nada pra reformar a concentração antidemocrática na propriedade dos meios de comunicação - como alertam militância e não militância há décadas.

Aliás, fez sim, continuou a transferir dinheiro público pra sustentar essa mesma imprensa antidemocrática. Parabéns. Mexam as bundas das poltronas governista primeiro, retomem os programas de acesso à cultura lá dos primeiros tempos do PT, hoje enterrados. Comecem aí, no topo do partido, a enfrentar a mídia conservadora, depois a gente conversa sobre apoio. 

PS: Na Folha "Relator da CPI do Cachoeira diz ter sido abandonado pelo PT. Texto do deputado petista Odair Cunha perdeu por 18 a 16 na sessão em que dois senadores de seu partido faltaram"

segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

Diálogos pra História

Tudo bem, quem quer um roteiro bem construído, diálogos precisos e afinados, vai assistir Breaking Bad, jamais vai ver 24 horas. Mas, contudo, porém, pelas netflixs da vida, acabei repassando recentemente a vida do heróico Jack Bauer em revista. Como esperado, dei de cara com alguns dos diálogos mais absurdos que já vi - e olha que cresci nos anos 80. 

De longe, o que ganhou o troféu, aliás, troféu nada, hour concour total,  foi a conversa de Jack com sua filha Kim. A loirinha tem a duvidosa honra de batizar um dos personagens mais imbecis da história da TV desde que o primeiro transistor foi posto pra funcionar, e aqui ela exercita sua melhor forma, mostrando todo o potencial que a consagraria.


Kim recebe uma visita de seu pai, Jack. Ela não quer falar com ele, ama ele, coisa e tal, mas traumatizada com os eventos da primeira temporada a moça diz que precisa de um tempo e essas coisas tolas de roteiro tolo. Eis que Jack recebe uma informação bombástica, literalmente (e do tipo nuclear), e sai correndo pra ligar pra Kim e alertá-la. 

A loira atende o telefonema de seu pai (que trabalhava até pouco tempo na divisão de contra-terrorismo do governo dos EUA) com aquela cara de patricinha contrariada. Jack fala: querida, estou aqui na (sigla da divisão de contra-terrorismo) e acabei de saber de uma coisa importante, temos que sair de Los Angeles neste minuto. [diálogos de memória, mas o espírito foi esse] Kim: pai, já disse que não quero falar com você agora, quando estiver pronta te procuro. Jack (voz desesperada): Tá bom, não precisa  falar comigo, mas você precisa sair de Los Angeles agora, faça isso (barulho de telefone desligado na cara). Kim de biquinho, cara de patricinha deprê. SENSACIONAL. Humor de primeira. Teu pai é um agente fodão no combate ao terrorismo, te liga dizendo que tá lá na sede da divisão de combate ao terrorismo, que tem uma informação importante e é pra você cair fora da cidade o quanto antes e...você desliga na cara dele e fica biquinho depré, e não atende mais as ligações todas que ele faz. GÊNIO.


Na minha lista das figuras que merecem deitar na mesa coberta de plástico do Dexter e receber o tratamento de pele que moço aplica, essa loirinha tá disparado no primeiro lugar.


PS - Na primeira temporada a loira já tinha feito de tudo pra conquistar a audiência com sua inteligência apurada. Ao escapar de um grupo de terroristas (quem assiste as temporadas de 24 horas fica com a impressão de que tem mais terroristas que habitantes lá nos EUA) a moça vai procurar refúgio com....o moleque bandido que tinha acabado de sequestrá-la pros mesmos terroristas. Sim, ela tava meio interessada no cara e ele disse que tava arrependido, mas claro que ela se fode de novo. Algum roteirista iluminado passou as primeiras temporadas inteiras do seriado achando que colocar a loira em situações de perigo - mesmo sem sentido nenhum - elevava a tensão sobre o seu pai protagonista, até que uma hora devem ter falado pro iluminado roteirista que, naquela altura do campeonato, não só a audiência como o próprio Jack Bauer estavam querendo que a Kim explodisse - em câmera lenta e em close, tamanha a capacidade da patricinha chata fazer merda. E tiraram a moça da série. Infelizmente sem explosão. Ou o Dexter.

domingo, 2 de dezembro de 2012

Como funciona parte 3: autoajuda

Como nas igrejas,  o típico adepto da autoajuda (o que paga, não o que forra o bolso de grana) tem como pressuposto necessário a falta absoluta de confiança na sua atividade cerebral. Bom, na verdade quem forra o bolso também não foge muito desse diagnóstico, mas como não pega bem chamar o cara que pode pagar suas contas de imbecil, os gurus de autoajuda usam em abundância o eufemismo baixa autoestima pra referir-se as suas vítimas ao seu público alvo. Então, pra pessoa tapada com baixa autoestima, faz-se necessário um ser iluminado pra lhe mostrar o caminho da luz. Pra uns (muitos) esse iluminado é jesus, o nazareno. Pra outros, além de jesus, o nazareno (pois o adepto da autoajuda é, logicamente, adepto de alguma religião - forma milenar de autoajuda), o ser iluminado pode ser também o Gabriel Chalita, o Shinyashiki, o Augusto Cury, o já meio fora de moda Lair Ribeiro (que usa o também eufemístico título neurolinguista pra não assinar charlatão nos livros), quem escreveu O Segredo ou O Monge e o Executivo e qualquer das centenas de charlatões do momento.

Pessoas com um ou outro neurônio (ativos) tendem a desprezar a literatura de autoajuda. Eu, com minha erudição beirando a zero (numa escala de zero a cem), talvez, exatamente por isso, não tenho nenhuma má vontade com as obras deste gênero. Tenho é muita vontade, de vomitar, a cada frase ou capa de livro duma dessas porcarias que vejo aí, nas livrarias e catálogos que recebo. Mas há um problema evidente nessa postura. Ignorar ou vomitar não anula a recepção em massa destas obras por aí. E não ajuda a entender também.

 Foto: Revista Trip

Lá dentro dos muros do convento, um lugar também conhecido como universidade, sei que tem algumas teses e dissertações que dão conta, ou tentam, do fenômeno da autoajuda, mostrando que, além de enriquecer alguns charlatões, as obras servem de instrumento necessário ao controle da gerência capitalista. Grosso modo, o Fredric Jameson identificou no pós-modernismo e suas "desconstruções" das grandes narrativas, suas pós-ideologias, pós-industriais, sociedade do conhecimento...uma perfeita cobertura cultural ao momento econômico que ele chama capitalismo tardio - do Mandel, dos frankfurtianos. Quer dizer, na virada dos 60 pros 70, e seguindo pros 80, era econômica e politicamente, necessário ao capitalismo obstruir as políticas esquerdistas, ligadas ao período industrial e ao marxismo, como as lutas sindicais. Nada melhor que uma cultura "antenada" que pregue exatamente o fim dessas modernidades, o fim das classes, o pós-tudo isso. Claro que isso é só uma aspecto, e o Jameson mesmo mostra que as transformações indentificadas com o pós-moderno aconteceram - e foram aceitas amplamente - e não adianta ficar dizendo que não gosta, fazendo biquinho. Com a autoajuda é algo parecido. Não, não estou dizendo que o Dale Carnegie ou quem escreveu O Segredo são idênticos ao que representam o Barthes ou o Lyotard, mas no ambiente completamente avesso à cultura mais profunda, a partir dos 90, era evidente que a lógica do neoliberalismo incentivaria uma visão cultural desprovida de qualquer espírito crítico ou postura coletiva, daí AUTO AJUDA.

Não é um complô capitalista, mas uma necessidade da economia sem freios do chamado neoliberalismo, que se casa com os interesses de uma pseudocultura encarregada de: 1) promover essa economia na lógica dos patrões, daí o discurso empreendedor. 2) desqualificar os seus críticos, os "esquerdistas", "perdedores". A lógica é simples, quem faz isso ganha espaço e dinheiro, vai dar entrevista na GloboNews...Quem não faz, fica restrito aos círculos acadêmicos e outros espaços com visibilidade muito menor - até mesmo pelo conteúdo da crítica, pois poucas pessoas sacariam um livro do Jameson chamado Pós-modernismo: a lógica cultural do capitalismo tardio pra ler enquanto espera o voo em Congonhas. Melhor pegar O Monge e o Executivo. Daí uma pseudocultura hegemônica, onipresente nas estantes das livrarias, citada e recitada o tempo todo como exemplo de sabedoria. Não é por acaso que a chamada ciência do capital, a Administração, tenha se tornado praticamente sinônimo de autoajuda. A consequência do pós-modernismo não foi um aprofundamento dos Lyotard, Mcluhan, Barthes, Baudrillard, Derrida, Deleuze e outros pensadores igualmente interessantes. Foi a proliferação dos Chalitas e Shinyashikis.

Por que desconfiar: Enquanto quem tem um neurônio ativo torce o nariz, esse povo da autoajuda vai construindo uma cultura da adaptação que se encarrega de satisfazer qualquer vontade dos patrões. Não se trata apenas, como alguns consideram, um problema do tonto que compra essas coisas, onde o guru lança lá a baboseira, dá suas palestras caríssimas e paga por isso quem quer. Como cultura, mesmo pseudo, e cada vez mais hegemônica e menos sub, a autoajuda molda,  ideologicamente, uma visão de mundo. E esse mundo planificado é, via de regra, avesso ao humanismo, ao aprofundamento do conhecimento, ao pensamento crítico...e por aí vai. Sei que pensamento crítico, conhecimento aprofundado e essas coisas soam abstratas, mas vai tentar dar um aula prum típico ser criado nessa cultura pra ver a coisa materializada. Pede pra criatura ler um texto razoavelmente profundo de mais de 3 páginas e vê o que acontece.  Quem acha que essa é apenas uma subárea da cultura, restrita aos nichos, vai dar uma olhada no cinema de shopping aí perto. Vê o que tá passando, o que faz sucesso.

Consequências: se você for professor/aluno de uma escola pública, dessas clássicas, caindo aos pedaços, superlotada, sem mesas e cadeiras pra tanto aluno, banheiros inutilizáveis, alunos convivendo com o crime organizado...enfim, tudo na merda ou quase isto, ao invés de se revoltar, se unir aos moradores do local e pressionar políticos e governos pra mudar, você vai ter que lidar com coisas assim: o importante é o amor, só o amor e o afeto podem mudar as condições adversas....O amor é capaz de quebrar paradigmas, barreiras, ranços. É o amor que nos envolve, que nos move. O amor do professor pode salvar seus alunos...Assim pensa um dos "grandes pensadores da educação no Brasil", no caso o Gabriel Chalita, que além de grande pensador da educação é político com algum poder, deputado federal com grande número de votos, candidato derrotado a prefeito de São Paulo (mas com boa votação pra cacifar futuras ambições), ex secretario estadual da educação em São Paulo no PSDB de Alckmin e com prestígio agora junto ao PT pra influenciar na área - e autor prolífico, com mais de 30 livros publicados antes dos 40 anos, incluindo clássicos como Educar em Oração ou Seis Lições de Solidariedade com Lu Alckmin (sim, puxando o saco na cara dura da mulher de seu então chefe, governador do estado).

Este é apenas um exemplo de como esta cultura de puxa saco de patrão, que desvaloriza qualquer conteúdo sério, impregnou de tal forma nossas vidas que, mesmo quem jamais se aproximou de um livro desses vai ter que aguentar um de seus gurus influenciando diretamente em políticas da educação. Mesmo um alienado como eu, que tentou acompanhar a cobertura do UOL das olimpíadas de Londres, notou uma foto estranha na lista normal de colunistas do portal, como o Juca Kfoury. Numa daquelas típicas fotos de charlatões - sorrizão forçado (simulando descontração em excesso) e expressão de que quer te vender um carro usado que funciona que é uma beleza, o guru Roberto Shinyashiki aparecia diariamente com suas pitadas de sabedoria pra julgar o comportamento dos atletas brasileiros, quem tinha espírito vencedor ou não. Realmente, é preciso um elevado brilhantismo intelectual pra dizer, depois da derrota, que a saltadora com vara tem problemas pra alcançar o sucesso. Imagino, num raciocínio análogo, que os medalhistas de ouro tenham, como característica, a facilidade pra alcançar o sucesso. Tautologia tosca, mas que deve pagar bem - pro Shinyashiki. E eu, que já me achava meio tonto por ainda prestar atenção nesse tal de esporte, vejo que o principal portal de notícias do Brasil vai mais além, considerando quem acompanha esporte ali um imbecil por inteiro.

Um exemplo mais sério e bastante comum: quem trabalha numa grande empresa já deve ter passado por essa, uma situação foda, salários baixos, ameaça de demissão em massa, fechamento de unidades, mudança da tua unidade pruma cidade na puta que pariu e....aparece um guru de autajuda contratado a peso de ouro pela empresa (que dizia pro sindicato que tava quase falida) pra dar uma palestra motivacional e "ajudar a enfrentar os desafios, as mudanças de paradigma". Você, claro, é obrigado a ir. Senta lá, na hora marcada, e começa o show com o cara botando uma musiquinha de pássaros pra "tirar as nuvens que nublam o ambiente". Como é sempre possível piorar, logo o guru começa com aquelas dinâmicas retardadas todas, que fazem de tudo, menos tratar da merda da situação em que tá teu trabalho naquela maldita empresa.

A aceitação ampla destas baboseiras está muito longe de restringir-se ao espaço pessoal do cara que vai na livraria e compra esse lixo. É a afirmação de uma cultura incapaz de ser original, de pensar, refletir, olhar pra si e criticar o que vê. Detesto o hábito de comparar tudo que se julga errado com algo tirado do nazismo - uma prática habitual dos péssimos comentários da internet. Mas sempre que vejo uma figura dessas da autoajuda dando "lições" de sucesso aos mortais, lembro da Hannah Arendt acompanhando o julgamento do Adolf Eichmann. O antigo oficial da SS responsável pela logística dos campos de concentração nazistas, observou Arendt, era incapaz de um pensamento original. Quando, com muito custo, conseguia falar algo que saísse do lugar comum, Eichmann, contente com si mesmo, repetia isso até virar mais um dos seus habituais clichés.

Não estou dizendo que quem lê o Shinyashiki, o Chalita ou O Segredo vai sair por aí querendo organizar um campo de concentração. Mas também não vejo esse adepto da lavagem cerebral autoajuda como alguém capaz de se opor a isso - ou se opor às ditaduras, tortura, politicas de extermínio... Taí Gaza, um campo de concentração controlado pelo povo que sobreviveu aos campos de concentração, pra mostrar que hoje em dia podemos aceitar qualquer coisa, desde que tenha um cliché explicativo pra confortar a consciência e adormecer ainda mais nosso já atrofiado cérebro.

Assim, depois que alguém na Palestina dá uma estilingada num israelense, achamos perfeitamente normal o bombardeio de áreas civis pelos mais modernos e pesados armamentos de guerra israelenses - adquiridos juntos ao "líder do mundo livre", como se auto intitula o presidente dos EUA - como, por exemplo, caças de guerra F-16 e helicópteros Apache. Também não tem nada de mais se Israel jogar nas áreas civis, cheias de crianças, bombas de fósforo branco (proibidas pelas convenções da ONU) que queimam profundamente a pele de quem entra em contato com a fumaça criada pela substância . Não, nenhum guru da autoajuda vai falar disso, o mundo deles é, na aparência, outro. Mas é esse outro mundo que possibilita e incentiva o massacre de civis no mundo de verdade, o de Gaza.

quarta-feira, 21 de novembro de 2012

Bebo sim, mas não preciso ser um cretino

Dizem meus amigos da publicidade que o Brasil é "primeiro mundo" no ramo. Um montão de Leão de Ouro em Cannes e outros prêmios tão aí de prova. Começa que primeiro mundo é um termo tolo, classemedista afetado, que geralmente é dito por quem não conhece mundo algum, mesmo que viaje um montão. Descontando a afetação, lembro sim de muitas propagandas boas, criativas e divertidas feitas aqui. Porém, meu contato com televisão nesses tempos limita-se aos jogos de futebol e corridas de F1. Confesso que não sei bem a quantas anda a propaganda feita atualmente no Brasil e, num esforço, não consigo lembrar de nada particularmente bom feito recentemente. Como não fico vendo TV, posso ter passado batido.  Mas sei muito bem, pelo conteúdo que vejo, que sou alvo preferencial de um tipo de anúncio que, ano a ano, consegue bater o próprio recorde de estupidez. Sim, os infames comerciais de cerveja.

Sempre que vejo uma das novas peças, fico imaginando uma reunião da agência de publicidade - a culpada pelo que acabou de passar na tela. Uma agência dessas fodonas, dona de uma das megacontas do setor de bebidas, como a conta da (In)Ambev e suas marcas todas: Antarctica, Brahma, Skol. Ou a conta da Schincariol, agora japonesa, da Kaiser, Sol.... Cada conta dessas deve injetar um caminhão de grana nas agências, puta responsabilidade pros publicitários, necessidade de montar uma boa equipe. Então penso nos caras da criação reunidos, depois das várias etapas que uma idéia percorre até ficar pronta pra primeira exposição, os clientes na frente da tela grande, luz apagada, aperta o play. Início das propostas pra aprovação e....infalível. Tão lá:

1) as gostosonas de biquíni.
2) a molecada - todo mundo tem 20 anos - festando, sempre, na praia, churrasco, bar, balada...
3) a molecada festando sempre, falando de mulher gostosa e se comportando como quem tem 13 anos.
4) e, enfim, a cerveja da marca, pra mostrar que a molecada que fica  festando sempre pode contar com ela, pro que der e vier.

E as centenas de variações do mesmo tema. 

Será que não vai ter uma bendita agência que vai dar um chega nessas baboseiras? Ou um desses megaexecutivões, do lado dos clientes, pra dizer o óbvio: escuta, com a grana toda não dava pra fazer uma proposta melhorzinha não? Gosto de pensar que quem bebe minha cerveja não é um zumbi completamente estúpido. Não sei quem nasceu primeiro, a proposta cretina ou o cliente querendo sempre algo cretino na proposta, mas tenho certeza que uma agência que rompesse esse círculo idiotizante, com uma proposta nova, mudaria o rumo das coisas, faria a tal da diferença. Não é essa a meta dum bom publicitário? Fazer diferente?

No exemplo abaixo, ao invés de bater no peito e gritar alto como somos cretinos e adoramos ser dessa forma, a agência brinca, de forma simpática, com a imagem abobalhada dos bebedores de cerveja.


A princípio, nem parece tão diferente. Tem festa, mulheres e bebedores de cerveja abobalhados (faltou os biquínis). Mas é, no fundo, completamente diferente do que vemos aqui. Tem um detalhe chamado inteligência.

segunda-feira, 19 de novembro de 2012

Ao vencedor, o açucar.


Não importa. Tanto faz. Pouco adianta. Todas as lutas, as batalhas vencidas, o suor derramado em cada uma delas. Pra não dizer do sangue. Só não falo das lágrimas pra evitar cair de vez na cafonice do Winston - onde já estou meio atolado aqui. As derrotas, doídas, remoídas, mas, uma a uma, revertidas nas vitórias seguintes. Rumo ao gran finale, a vitória das vitórias, a batalha que define a guerra. Ou assim parecia. Não importa sua dedicação, sua confiança inabalável, a frieza nos momentos mais tensos, a precisão dos movimentos, a agilidade obtida nos anos de treinamento pesado. Tampouco fez diferença o tempo gasto lendo todas as versões de A Arte da Guerra, do Sun Tzu - comentadas por gente como o Nicolau Maquiavel, o Felipão, um executivo de vendas ou um participante dum reality show. Também não foi de grande ajuda estudar as partidas clássicas dos mestres do xadrez, o Kasparov, o Fisher, Karpov, Capablanca. O livro História das Guerras então, tava no lixo, devia ter ficado lá. Tempo que nunca mais volta. Os inimigos sim. Eles voltam. De nada serviu a criação de um complexo serviço de inteligência que prometia antever os movimentos inimigos. Na hora H, nenhum informante, cultivado ao custo de tantos agrados, informou coisa que preste. Aconteceu. Teria acontecido, mesmo se fosse tudo feito diferente.

Não se trata aqui de uma glorificação do conformismo. Uma recusa, a priori, da ação. Ninguém tá festejando a certeza da derrota, mas constatando, com alguma amargura, o que virá. Na tradição do pensamento cínico, que interpreta e tenta compreender, dispensando julgamentos morais. Ao final, do cinismo prevalece o apocalipse desesperançoso adorniano, rendido, impotente. Mas é isso. Não adianta. As formigas voltam. Pode limpar tudo direitinho, usar o mais caro produto de limpeza. Pode passar dias, meses, anos, arrastando móveis, procurando o local da infestação. Pode meter aquele veneno que promete milagres. Não adianta nada colocar o açúcar e doces em potinhos hermeticamente lacrados. Redução de danos, adiamento. Quando tudo parece placidamente resolvido, livre, elas voltam. Elas sempre voltam. Sossega. Pega lá uma latinha de cerveja. Bem gelada. Não perde tempo não.
Da série: Pensamentos em voz alta de um dono de casa.

sábado, 17 de novembro de 2012

Outros motivos

Passei um bom tempo na internet observando o que acontecia lá nos EUA. Além da importância que (ainda) tem um presidente americano, teve toda guerra retórica, sempre divertida - meio chanchada, meio tragicomédia - entre republicanos e democratas. Os debates todos (lá tem debate, aqui, com essas regras chatas, não tem) e as gafes e mais gafes dos republicanos. Relembrando, teve um pré-candidato que disse (acho que o Rick Perry), enfático, que, eleito, fecharia imediatamente três grandes agências federais. Quais? Ele esqueceu. Pegou a mesma receita do médico da Vanusa. O Romney, já debatendo com o Obama, reclamando que as forças armadas já não têm tantos navios como noutros tempos, nos anos 40. O Obama olhou pro Romeny e falou: sim governador, temos menos navios, menos cavalos, menos baionetas, as guerras mudaram. Putz, acho que foi o melhor direto que vi desde que pararam de passar boxe na TV. E o Stewart, o Colbert e o Maher tavam lá pra se aproveitar das qualidades todas dos candidatos. O Stewart, tentando entender como um panaca como o Romney conseguiu ser o candidato republicano, mostrou um vídeo com os "melhores momentos" dos outros pré-candidatos republicanos, o Grinch, o Perry e o Santorum. Páreo duro, todos muito, mas muito imbecis. Concluiu o profético Stewart, o Obama é o cara mais sortudo do mundo. O Bill Maher tirou sarro dum dos fetiches das coberturas eleitorais, os indecisos. Tinha gente seguindo esse pessoal, reunindo os caras pra ver o debate, sempre passando o idéia de que eles ainda não tinham decidido porque pensavam mais, são mais profundos. Mahler disparou: tem um cara que tá aí na presidência por quatro anos, o outro é candidato há décadas, e, faltando menos de uma semana pra eleição, depois de tudo que já foi debatido, essas pessoas ainda precisam de mais argumentos pra decidir entre um e outro? E querem me dizer que esses são os eleitores mais inteligentes?

E, não fosse motivação o bastante, teve, nas coberturas ao vivo, essa moça.


Alicia Menendez.


Parece que já trabalhou na FOX News, e com o Bill O"Reilly! Agora moveu-se à esquerda. O que não é exatamente difícil pra quem saiu da FOX, basta não entrar prum grupo ariano de supremacia branca. Passou pela MSNBC e agora vi sua cobertura (ops) no Huffington Post.


Um dos efeitos colaterais dessa cobertura no Huffington foi ficar meio disperso - e sem precisar do remédio da Vanusa e do Perry. Qual era afinal o assunto do debate que acabei de ver? Me perdi. No primeiro debate com  Romney, o Obama deve ter ficado olhando pro monitor do Huffington Post. Ficou aéreo, desligado, só faltou cantar o hino nacional brasileiro.



Alias, quem eram os candidatos mesmo? Disputavam o quê? Nada de importante. Com a Alicia apresentando, qualquer assunto fica em segundo plano. Até meu inglês precário. Tão precário que tudo que entendi e coloquei acima pode ter sido bem diferente, provavelmente o oposto. Menos a Alicia.

PS - Post feito, não por acaso, num sábado. Influência óbvia do clássico Porque hoje é sábado, no Milton Ribeiro. Pena que a Alicia não seja tão desinibida. Pelo menos que eu tenha visto.




sexta-feira, 16 de novembro de 2012

É autocrítica, estúpido?

Lá, como cá, me divirto muito com a cara de bunda dos comentaristas conservadores depois de uma derrota eleitoral. Passei esses dias vendo os vídeos dos melhores momentos da FOX News na cobertura da eleição presidencial. Eis alguns pontos altos, o the best of, só o filé:

1) Karl Rove negando a derrota de Romney, ao vivo, pra espanto até dos seus colegas de emissora - com todo mundo já dando parabéns pro Obama, reeleito naquele momento por todas as projeções. A apresentadora da FOX, diante da certeza de Rove na vitória republicana, levantou e foi na salinha falar com os estatísticos perguntar se tinham alguma duvida da derrota republicana, 99,9% de certeza um deles falou. Um parentese, como lá é uma zona total, com cada estado com um jeito próprio e uma apuração sem fim, e a decisão é no colégio eleitoral, esse negócio de projeção dos resultados é levado muito a sério, os caras viram astros, dão um monte de entrevistas. Aqui como não dá nem tempo de fazer projeção, a apuração dura meia hora, esse papel de guru fica com os caras do Ibope, Datafolha e Vox Populi - e somente antes das eleições. E o Rove ainda negando, "será um vitória republicana". A apresentadora - da FOX News! - vira pra ele e pergunta: isso confere com a realidade ou é só pros republicanos não ficarem depré? (tradução bem livre, mesmo, nem lembro o que ela disse, mas era nesse tom).

2) Bill O'Reily e Sarah Palin, apresentador e comentarista da casa, tavam lá pra explicar que a América não é mais branca - caras de velório. Sim, vão culpar os nordestinos lá também - no caso negros, latinos, asiáticos, mulheres, jovens não-brancos... Até o Sandy (o furacão) culparam, dizendo algo como caiu no colo a chance do Obama mostrar serviço, sortudo. Esquecendo-se que Bush teve o Katrina e mostrou ali, na prática, o que os republicanos querem dizer com ausência do Estado - ou danem-se os pobres. 

3) Sequência de especialistas da FOX, todos consternados, mostrando levantamentos demográficos, mais latinos, mais asiáticos, negros. Meu deus, pavor. Eles querem algo, diz O'Reily, muito abatido. Que coisa estranha não? Quem vai dar? Pergunta O"Reily. Obama, ele mesmo responde. Pois é. Autocrítica? Não, claro. Vão demonizar as minorias, que querem algo.

E aqui uma grande diferença entre lá e aqui. Jon Stewart e Stephen Colbert. Humor político ácido, engraçado e de esquerda. Sim, existe. Quem acompanha humor (ou o que classificam disso) por aqui não deve saber o que significa.  Cada um tem seu próprio modus operandi. O Stewart pega um tema e mostra as declarações dos republicanos e apresentadores da FOX, deixando que eles mesmo se exponham ao ridículo - claro que ele ajuda isso, geralmente imitando o jeitão do cidadão que falou por último e exagerando ainda mais as bizarrices ditas. Num exemplo: a apresentadora da FOX fala, casualmente, como "conseguiram" colar a imagem de pró corporações, pró ricos, em Romney. Como se isso fosse uma esperta e injusta estratégia de marketing democrata. Apenas isso. Stewart então contrapõe com um video editado com os republicanos todos dando declarações pró corporações, pró ricos. E não precisou nem falar dos tais 47% do desastroso vídeo do Romney. Colbert tem uma abordagem interessante, simula ser um típico idiota conservador, desses ultrapatrióticos - parece até o American Dad do desenho (e aqui lembra um pouco o a fórmula de ironia do nosso Professor Hariovaldo Almeida Prado, no seu blog) - pra demolir os pontos martelados pelos republicanos e a FOX News. Colbert e Stewart, além de uma ótima turma de redatores, mostram um desempenho muito bom pro tempo das piadas, quase sempre feitas sobrepondo imagens reais de reportagens e comentários do seu alvo preferencial, a FOX. Resumindo, são grandes humoristas - e usam isso pra desconstruir o discurso conservador.

Voltando a cobertura, ao final, o grande cliché explicatório da reeleição do Obama é o das tais mudanças demográficas. Nesse argumento, repetido o tempo todo na FOX News, Obama só ganhou por causa dos votos das minorias - e estas crescem ano a ano e, somadas, já ultrapassam os brancos. Não por acaso o mesmo argumento, acrítico, foi repercutido pelos repetidores de sempre daqui. O Sérgio Dávila, na Folha, usou o originalíssimo título É a demografia, estúpido - na milésima quinquagésima terceira paráfrase, neste ano, do famoso bordão "É a economia, estúpido", do James Carville (a Cantanhêde, mestre em reciclar material já aproveitado à exaustão, deve ter ficado puta com o chefe, aposto que já tinha algum artigo com algo assim, originalíssimo, no título, mas tudo bem, ela pode usar, se já não usou, agora no "julgamento do século", tipo: é o mensalão, estúpido. É o Barbosa, estúpido. É o domínio do fato, estúpido....). Não, não é a demografia, Dávila. É a adesão do candidato republicano ao discurso conservador mais tosco do Tea Party que assustou os eleitores. Exatamente como ocorreu com o candidato da Folha aqui, o Serra (e, sejamos justos com o Dávila, ele menciona isto, dizendo que lá, como cá, republicanos e tucanos ficam esperando um país que se adapte aos seus desejos, e não o oposto). As minorias não têm com Obama nenhum contrato de exclusividade, ou com os democratas, ou com o PT aqui. Os latinos, ao contrário, têm tradição de voto em republicanos. Agora se o cara do Partido Republicano prega linha dura contra imigrantes, principalmente latinos, adivinha se vai ganhar os votos deles. Até cubanos anti-castristas da Flórida votaram no Obama. O Romney defendeu abertamente o fim - ou a privatização, que dá no mesmo - das agências federais responsáveis pela defesa civil em casos de catástrofes. Vem o Sandy e Obama faz o óbvio, oferece todo apoio do governo federal às vítimas, no que recebe entusiasmados agradecimentos até de um governador republicano. Pra quem se inclinariam a votar os atingidos pelo Sandy? Pra quem votariam os negros atingidos pelo Katrina - e deixados na mão por Bush Jr.? Se o Romney e seu vice, Paul Ryan, pregam o tempo todo pros brancos "de sucesso", atacando qualquer auxílio do Estado aos cidadãos (os não tão bem-sucedidos), em quem vão votar os que recebem algum auxílio? E não são aproveitadores, como os republicanos pensam - e deixaram escapar em vídeos, são pensionistas que contribuíram a vida toda, são veteranos de guerra, pessoas com problema de saúde...E olha que o Obama deixou de fazer tanta coisa nesses quatro anos que quase conseguiu perder. Pro Romney!

E os analistas acham muito estranho que votem em Obama. Lembra, no nosso caso, aqueles tuites e posts do facebook depois da vitória da Dilma, xingando nordestinos, pedindo pra afogá-los - né Petruso. Pessoal maluco, votar em quem melhorou suas vidas e não no cara que quer tirar tudo - e ainda os chama de burros. Como os analistas tão sem idéias novas faz tempo, ficam nessa de pegar qualquer coisa e então colocam uma vírgula e acrescentam estúpido no fim. E pronto. Tá explicado. Seria até uma boa autocrítica, se a idéia fosse essa. Funciona como autocrítica involuntária, com seu onipresente estúpido no fim, ali, acusatório, olhando pra cara de quem escreveu.